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sábado, 11 de janeiro de 2014

A Giovanetta e a Amante: uma comparação livre


Na escola, a Giovanetta será a primeira aluna da classe. Terá um rígido código de ética, participará do jornalzinho e fará campanhas contra a depredação da natureza, a guerra do momento, o tráfico de pessoas. E, obviamente, terá uma série de críticas à Amante, a garota mais popular da escola. A Giovanetta, como um arcano de Paus (Fogo), quer mudar o mundo e tem força de vontade mais do que suficiente para isso. Fará uma graduação, um mestrado, doutorado e o escambau para ser a melhor em sua área. Confia plenamente em sua inteligência e garra, como pequena Atenas que é.

A Amante é a líder de torcida, a mais admirada, aquela que todos queriam ser. Às vezes pode parecer um pouco metida e malvada. Precisa ter os garotos a seus pés, adora quando as garotas a imitam (e tem um batalhão de amigas). Como arcano de Copas, ela precisa do afeto das outras pessoas. É possível que se case com o melhor partido, ainda que a Giovanetta torça para que a Amante acabe como mãe solteira aos 16 anos, arrume um namorado viciado em drogas e sirva de exemplo. Se fizer faculdade, terá seu lugar garantido na empresa: ela sabe a quem agradar, a quem elogiar e de quem manter distância. É a pequena Afrodite: vaidosa, intuitiva, com apurada inteligência emocional.

E eu, que sou viciada em séries, encontro as duas em uma das minhas favoritas: Mad Men. O enredo gira em torno de uma agência de publicidade na Madison Square, em plenos anos 60 (mais detalhes aqui). 

Nossa Giovanetta é Peggy Olsen, que começou como secretária, mostrou que nem só de maquiagem vivem as mulheres e galgou o posto de redatora (brilhante, por sinal), cargo cobiçado por qualquer homem da agência.


Já a Amante é, certamente, Joan Holloway, a ruiva fatal. Ninguém fica indiferente ao seu charme, que ela sabe usar como ninguém. Sua aparência, no entanto, esconde uma mulher inteligente e sensível. Sua influência é invisível, mas densa. 

Uma das campanhas publicitárias criadas durante a série é emblemática. Para vender um sutiã, lança-se mão dessa dicotomia Atenas-Afrodite usando a imagem de dois ícones da época: Jackie Kennedy e Marilyn Monroe:



Dessa forma, vemos que os arcanos não se limitam à imagem da carta, mas ganham vida de diversas maneiras. Arcano significa "mistério", e cada pessoa traz dentro de si vários deles. Somos arcanos ambulantes, mas às vezes um daqueles que nos habita se destaca mais, usa a nossa voz e o nosso corpo para se expressar. Qual é o seu arcano mais ressonante?


Inspiração bibliográfica:

Giovanetta - 12 de Paus



Ou Giovine Fanciulla, no baralho Vera Sibilla. Continuemos com as mulheres. E as mais jovens, agora. Como veremos, as mulheres não se tornam mais complexas com a idade. Elas nascem complexas, e as complexidades mudam apenas de natureza com o tempo.                                                    
A Giovanetta, Jovenzinha, Moça... como a chamaremos? Deve ter menos de 20 anos. Ela se veste com decoro, de acordo com o que lhe foi ensinado por seus abastados pais e tutores. Sai pouco de casa, exceto para ir para o colégio interno de moças ou à missa. Ainda não foi apresentada à sociedade, não frequenta os bailes. Ela passeia pelo jardim de casa enquanto lê um livro. Um lindo romance, talvez. E sonha com o seu príncipe encantado. Olha para o futuro, um futuro brilhante. As perspectivas são as melhores: um casamento, filhos gorduchos, a paz mundial, talvez uma carreira fabulosa. Pois ela é uma boa moça, tem disciplina, tentará fazer tudo certo. E quem faz o que é certo é recompensado, correto?

Sabemos (?) que a vida não é assim tão cor-de-rosa. Mas a Jovem, não. Não vamos culpá-la: todos nós passamos por essa fase. É essa inocência, essa confiança no futuro que nos faz enfrentar o mundo. Sem ela, nem sairíamos da casa dos nossos pais.

O jardim parece uma fotografia chapada atrás dela. Não há perspectiva, não há profundidade. E assim ela vê o mundo: sem sua profundidade, suas nuanças, os insetos escondidos nas rosas mais bonitas. Tudo é tão claro, tão óbvio! Por quê as pessoas fazem tanta confusão, se o que é certo é tão simples? Pois é... a Jovem tem uma receita pra tudo: as coisas se resolvem com vontade, com amor e com disciplina. Vá dizer a ela que nem tudo é tão simples assim... ela não acreditará em você, meu velho! Para ela, ninguém é confiável depois dos 30 anos.

“Não sou jovem o suficiente para saber tudo” (Oscar Wilde)

A Jovem Mulher mostra uma pessoa inocente, imatura, sonhadora. Sua postura rígida exala timidez, mas também pode revelar uma cabecinha dura, que desconfia da corrupção e descrença dos mais velhos. Eu leio um bocado, então não venha me dizer que não sei nada sobre a vida! É a universitária que entra pro grêmio estudantil, que vai às ruas para protestar a despeito do desespero dos pais.

Se a carta representar uma situação, é aquela em que há imaturidade excessiva. É preciso ter cuidado: que carta aparece rondando nossa menina? O Amante, com seus galanteios mais do que manjados, mas que são novos e fatais para ela?

Pelo lado positivo, nos aconselha a acreditar, nos inspira a velha confiança que tínhamos na juventude. Esquecemo-nos que essa confiança juvenil na mudança é que salva o mundo, de tempos em tempos.