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domingo, 8 de março de 2015

Amore - 4 de Copas


E não podíamos terminar da melhor forma: o Amor! Acho muito complicado falar dessa carta que parece tão óbvia e, ao mesmo tempo, tão complexa. O Cupido é um símbolo facilmente reconhecido: o deus-criança inconsequente que atira flechas a esmo. Os atingidos por essas flechar fatalmente cairão apaixonados pela primeira criatura que virem. 

Os gregos chamavam-no Eros, que não escapou ao próprio veneno. Incumbido por sua mãe, Afrodite, de atingir a jovem psiquê e fazê-la apaixonar-se por um ser monstruoso, acabou se ferindo com a ponta de uma de suas flechas. Eros apaixonou-se perdidamente por Psiquê e acabou por enfrentar sua mãe, que estava enciumada com o fato de ter uma simples mortal como sua concorrente em beleza e admiração. Pois é... nem mesmo Cupido escolhe a quem ama. E nós, simples mortais?

A carta mostra a possibilidade de apaixonar-se, mas o objeto e forma da paixão estará presente nas cartas vizinhas. Não vejo nela o desenrolar dessa paixão, suas cores, seus dissabores. Amore é o momento do feitiço, o momento em que olhamos para alguém ou para algo e ficamos enlevados. Se o amor dará certo, se haverá namoro, casamento, divórcio, brigas, decepções... isso veremos em outras imagens do Sibilla.

Certa vez perguntei sobre um serviço que queria contratar e ela me apareceu, mostrando um serviço "amador", mas não necessariamente ruim. Nesse aspecto, mostra alguém que ama o que faz, que se interessa por um assunto ou ofício. 

Poderia discutir aqui o que é o amor, mas seria inútil, creio eu. O amor por si só é um conceito infindável. O que nos faz gostar irracionalmente de alguém? Por que certas coisas nos atraem tanto e mexem com o nosso coração? Estamos no campo das emoções, que podem ser discutidas por imagens, aproximações, como tatear no escuro. Amore é a origem de outras tantas emoções que se desenrolam com o tempo. 



O amor que acaba bruscamente.
O amor não correspondido.
O amor que causa profunda dor.
O amor impossível.





O amor do passado.
O amor que deixa saudade.
O amor que se foi para sempre.





Amor à primeira vista.
O flerte.
A reconciliação.



Amor de carnaval!





O amor ao conhecimento.




O amor consumado. 
O amor que se transforma em contrato.
O amor responsável e mútuo.
O amor que inicia uma família. 


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Fedeltà - 9 de Copas

No Sibilla Della Zingara, vemos um cachorro afastado da cidade, num passeio ou até mesmo sobre o túmulo de alguém (imagem recorrente em outras sibilas). Recordemos que os cemitérios costumavam ser construídos fora dos limites das cidades. Conhecendo a natureza canina, logo imaginamos que esse túmulo deva ser do seu dono, falecido.

Os cães são valorizados por sua fidelidade além da morte. Várias são as histórias daqueles que acompanham seus donos em todos os lugares, até nos hospitais. Se conectam a nós de forma ainda misteriosa. Lembro-me de um cãozinho que tive por muitos anos e ficava alerta assim que eu estava me aproximando de casa. Minha mãe sabia, pelo comportamento dele, que eu chegaria em casa dentro de 5 ou 10 minutos. Esse mesmo cachorrinho faleceu aos 11 anos, pois tinha um coração fraco. Tanto amor para um coração tão pequeno!

O nome da carta é Fedeltà. Fidelidade. Aqui e em outras sibilas (Petit Lenormand e Zigueunerkarten, por exemplo), o cão é o representante por excelência dessa virtude. No Vera Sibilla, vemos o animal paciente ao lado de uma barraca armada e um chapéu. Não vemos o dono do cão. Mas mesmo assim o cachorro continua lá, guardando seus pertences, fiel. As duas versões da Sibilla Italiana, portanto, mostram a fidelidade até na ausência do ser ao qual se é fiel. Não é fidelidade por medo ou interesse, mas a fidelidade mais pura.



Num jogo, ele mostrará a quem ou ao quê se é fiel: tanto o Consulente quanto aqueles por quem ele questiona. Portanto, pode ser peça chave na descoberta de uma traição por amigos ou pela pessoa amada. Indica também onde está o coração de alguém, seus apegos, sua atenção.

Ele é um aliado, um protetor. Muitas vezes essa carta é mais forte do que o Imeneo, seus laços são muito mais densos.

Porém, essa fidelidade pode se tornar dependência, apego exagerado e vício. Ao lado dos Deliranti ou da Allegria, a despeito de seus significados isolados, pode mostrar alguém viciado em substâncias entorpecentes, bebidas etc. 




Podemos também ser dependentes de outra pessoa. Alguém pode estar na nossa cola, como um cachorro de rua que vai com a nossa cara e começa a nos seguir. Um stalker.  Nesse caso, como a carta é de Copas, falamos de dependência emocional. Nossos hábitos ruins (fumar, comer demais) também podem ter origem emocional. Quem não gosta de comer doces quando está deprimido? Esses são os hábitos mais difíceis de largar.

A teimosia também é a fidelidade ao que não funciona mais. Se pensarmos que o cachorro da primeira imagem está sobre um túmulo, temos duas cartas com túmulos no Sibilla Della Zingara: o Vedovo e Fedeltà. O viúvo, no entanto, preserva a memória do cônjuge falecido e segue sua vida. O cão age como se o dono fosse sair do túmulo a qualquer momento e tudo fosse continuar como antes. Ele não vê que não há mais o que fazer, que aquilo acabou. Numa leitura mais literal, podemos ver até mesmo um animal abandonado. Talvez acredite que seu dono irá voltar em breve e continua ali, esperando.

Fidelidade (Zigenerkarten)
Em seu melhor aspecto, a carta fala da fidelidade a si mesmo. E é a fidelidade a si mesmo que alimenta a fidelidade aos nossos ente queridos, as relações saudáveis de confiança. Tão difícil de alcançar, mas tão necessária num mundo em que somos obrigados a seguir padrões estabelecidos pelos outros.


"Mudar nossas vidas é complicado por causa das lealdades preexistentes.  Geralmente nos aprendemos a lealdade dentro da nossa estrutura familiar e como sinônimo de conexão à família. A lealdade a si mesmo, no entanto, é uma virtude totalmente diversa, e entregar-se à ela pode causar uma tremenda revolução dentro da família." (MYSS, CAROLINE. The Anatomy of the Spirit: The Seven Stages of Power and Healing. Editora Harmony, 2013)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Allegrezza al Cuore - 5 de Copas

             
É impossível descrever uma carta de maneira totalmente objetiva. Afinal, nem mesmo os tons de cores todo mundo vê igual.

A experiência de vida de cada um também nos faz simpatizar mais com um personagem do que com outro. A mulher enganada por um homem mentiroso terá reservas ao ver o Amante. Outros acharão a Amatrice frívola e vaidosa, ou bela, sonhadora e segura de si.


Vi algumas interpretações divergentes a respeito de Allegrezza al Cuore. Primeiro nos apegamos ao nome da carta ou à legenda (cuidado com as legendas!) e a associamos à festa, alegria, divertimento, carpe diem e tal. De fato, ela fala em diversão leve ou o início da festa (o fim da festa nós vemos nos Deliranti), o coração leve, o flerte. Ela traz como conselho o deixar-se levar, a balada no fim de semana (ou durante a semana mesmo, para os mais fortes). Relaxe!

Os jovens que dançam são pessoas simples, não estão num baile de máscaras ou num salão sofisticado. Estão ao ar livre, à vontade, provavelmente numa comemoração popular. A cena lembra o 3 de Copas do tarô Rider-Waite-Smith:

 


No Vera Sibilla, percebemos que a moça e o rapaz da esquerda estão se olhando com certo enlevo e interesse mútuo. Seus corpos inclinam-se um sobre o outro. Mas a jovem também está de mãos dadas com outro rapaz, de costas para nós. Seria parte da dança? Nesse quadro congelado no tempo, podemos enxergar um possível triângulo amoroso: a jovem se interessa mais por um rapaz, mas não abre mão do outro, que – de costas – não percebe o que está acontecendo.

Sob esse ponto de vista, a carta pode falar de situações pouco claras, de pessoas próximas que nos passam para trás ou estão perto de trair a nossa confiança. Aqui, a ocasião faz o ladrão: há oportunidade de tirar vantagem de uma situação, seja no âmbito amoroso, financeiro ou profissional. Caso esteja cercada por cartas negativas (com a dupla de Inimigos por perto, atenção redobrada!), recomenda-se olhar bem para os lados e prestar atenção no que as pessoas próximas a nós estão fazendo.

Como estamos no naipe de Copas, a traição é movida por causa do nascimento de um afeto, rancores ou confusão sentimental. Não há planejamento frio ou simples análise econômica sobre o assunto.


Mas se o consulente não é ciumento, podemos ver aqui um relacionamento aberto, ménage à trois, diversão sem preconceitos ou limites.  

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Costanza - 10 de Copas

Uma mulher rodeada por ruínas parece-nos tão firme quanto as colunas, que persistem por séculos. A imagem nos remete ao décimo primeiro arcano do tarô, em algumas versões mais antigas.


Por que uma mulher, o suposto sexo frágil, representa aquilo que tem forca suficiente para atravessar séculos? Vou divagar um pouco: é a mulher que transmite o legado genético e cultural aos seus filhos, é ela que tem o impulso de preservar, segurar, manter. No Ocidente, tendemos a glorificar o arrojo, o olhar para o futuro, o novo. Consevadorismo é uma palavra que assusta, mas se não houver conservação ao lado da renovação, não há referencias, raízes. A renovação absoluta é também a destruição.

Quando essa carta aparece no jogo, atentamo-nos para aquilo que permanece, que recusa-se a mudar. Positivamente, é a resistência, a resiliência. Negativamente, a teimosia.

"Mas as colunas são apenas ruínas", alguém poderá dizer. "Não sustentam mais uma construção. São apenas resquícios de outra era, restos de outra civilização."

Discordo. No ultimo sábado, visitei a cidade de Biblos (Jbeil, em árabe), alguns quilômetros ao norte de Beirute, Líbano. É a cidade continuamente habitada mais antiga do mundo. Ali, encontramos registros arqueológicos de varias civilizações que passaram desde a pré-história: fenícios, gregos, romanos, cruzados europeus, otomanos etc. Uma civilização construiu, literalmente, sobre as outras, uma usou os resquícios da outra para firmar-se. Na foto abaixo, colunas romanas foram usadas para fortificar os muros de um castelo cruzado:


Da mesma forma, nossa cultura, nossos hábitos e opiniões são um mosaico de peças que herdamos de nossos pais e sociedade, religião, influencias em geral. Todos temos crenças, que são arraigadas a ponto de nem sabermos de onde surgiram. Crenças que, muitas vezes, são inconscientes e que determinam nossas reações de um jeito que nem imaginamos. 

A carta alerta para hábitos arraigados, insistências que atrasam a vida, coisas que devem acabar se não quiser que virem ruínas de um tempo dourado. Fósseis mentais que povoam nosso inconsciente e vêm à tona de tempos em tempos.

Como conselho, no entanto, pede para que o Consulente não desista, bata o pé e tenha paciência. 

segunda-feira, 10 de março de 2014

Belvedere - 3 de Copas

Uma mulher apoiada sobre o muro vislumbra a cidade. Sua visão é privilegiada e provavelmente belíssima. Sorridente, parece esperar pela chegada de algo ou alguém.

Está distraída do que acontece a sua volta, como uma mocinha apaixonada. As rosas desabrochadas indicam que ela está pronta para o amor. E quem sabe se não é justamente o amor que ela espera?

O arcano fala da confiança no que está por vir, nos sonhos e projetos. Mostra um Consulente cheio de ideias ainda não concretizadas, mas que podem vir a se realizar. Não nos esqueçamos que tudo o que pensamos vibra de tal forma que pode se tornar realidade. Por isso é tão importante não alimentar pensamentos pessimistas e negativos.

Essa é a carta do pensamento positivo. Ainda que não mostre realizações, ela é muito poderosa. É o início de tudo.

Notemos que ela forma uma curiosa tríade com as cartas Sospiri e Malinconia. Sospiri volta-se para a lamentação do passado, de algo que já acabou e cujas brasas ainda queimam. Malinconia perdeu-se num presente sem sentido, a Realidade não tem sentido algum e pesa como chumbo. Espera é a carta do futuro, ansiosa e esperançosa.





quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Speranza - 8 de Copas

A Esperança é representada por uma mulher vendada, sentada numa esfera e cercada pelo mar. Nas mãos, tem uma harpa com uma corda só. A carta é abertamente inspirada no quadro Hope, de George Frederick Watts.


Na época em que o quadro foi concluído (1886), houve uma discussão sobre a adequação do nome. Alguns disseram que o título mais apropriado à imagem seria "Desespero", devido à situação difícil da mulher representada. Watts respondeu que Esperança não significa Expectativa. Na pintura, ela é sugerida pela música que pode vir da única corda restante da harpa.

Na Vera Sibilla Italiana e outros baralhos similares, a Esperança é representava com uma âncora no cenário.

La Vera Sibilla (Lo Scarabeo) e Zigeunerkarten (Piatnik)

"Temos essa esperança como âncora na alma, firme e segura, a qual adentra o santuário interior, por trás do véu." (Bíblia Sagrada, Hebreus 6:19)

 A carta aconselha a fé, o foco, a força em um objetivo ou na saída de uma situação difícil. Nos dá coragem. No entanto, o resultado positivo virá a longo prazo, e não imediatamente. Por isso, não é uma das cartas mais animadoras do baralho. A Esperança é difícil de capturar, de definir. Mas é ela que nos mantém em pé, sempre. 

O elemento água está muito presente em todas as cartas. O arcano também pertence ao naipe de Copas, do mesmo elemento. A água é a origem de toda vida e representa a sensibilidade, a intuição, os sentimentos. O elemento água nos faz sentir o que é invisível aos olhos com tanta força como se o fosse. E a Esperança precisa dessa sensibilidade para fazer efeito, para nos segurar. 

Negativamente, é uma carta de muita incerteza. Tudo é muito fluido, sem forma, confuso. Não vemos as coisas com nitidez, e podemos acabar mergulhados nesse imenso mar de sensações e dúvidas. Aquilo a que nos agarramos pode ser tanto uma âncora que nos mantém firmes quanto uma âncora que nos afunda de vez. Cuidado para não se apegar a ilusões e morrer afogado. Sob esse aspecto, a Esperança mostrará aquilo que prende a caminhada do Consulente e o impede de seguir de VERDADE. 

Por fim, gostaria de deixar um curta-metragem de 1922 que trata exatamente da pintura de Watts.


"Sorrow without hope is despair"

("Sofrimento sem Esperança é Desespero")

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Conversazione - Ás de Copas



Um grupo de jovens troca ideias de forma leve e amistosa.  Mostra os momentos descontraídos junto aos amigos, tão comuns na juventude. 

Como Ás de Copas, indica a necessidade de relacionar-se com outras pessoas. Nessa troca de experiências, sentimentos novos nascerão: amizade, amor, confiança, respeito. Aconselha a conversar com alguém para resolver um conflito. Conversar com alguém é muito difícil, em alguns casos. Podemos passar uma vida inteira sem conversar com pessoas muito próximas, como pais, companheiros, irmãos. Tagarelar sobre superficialidades é mais fácil (e diferente).

Cada pessoa é um mundo. Tem uma história de vida, sentimentos, sonhos, ideais particulares. Temos que ter em mente que a reunião desses elementos constrói crenças, elaboradas por nós ou repassadas pela família e pela sociedade. E nem sempre essas crenças equivalem à verdade. Infelizmente, a linha entre Crença e Verdade é tênue e permeável, para muitos. Há verdades absolutas e relativas. As verdades absolutas estão muito além do nosso alcance.

O contato entre dois mundos pode resultar em confronto, quando há intolerância e tentativa de imposição das próprias crenças. Mas também pode resultar no enriquecimento da alma. Jamais passaremos por coisas que outras pessoas passaram, mas ainda que não sejam parte da nossa experiência, podem nos servir de lições, se as recebermos com sabedoria. 


"Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de  colonização do outro." (José Saramago)


Antes de "levar a luz" aos outros, devemos "buscar a luz". Todo mundo conhece alguém que conhece a "verdade" e acha que tem a obrigação de dizê-la na cara dos outros "para o bem deles". O ato de ensinar requer muita responsabilidade, mas também muito respeito. Se alguém quer ensinar sem respeito, é porque não tem nada a ensinar.

Conviver é um aprendizado para a vida toda. É uma necessidade que traz consigo uma série de perigos e possibilidades. Se tentarmos escapar disso, acabaremos enlouquecendo. Portanto, devemos extrair o melhor disso. Precisamos dos outros, como os outros precisam de nós.


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Casa - 2 de Copas



Uma casa grande com todas as janelas fechadas. Vemos o seu exterior bem acabado, cuidadosamente pintado e limpo. Mas o interior é para poucos.

A Casa representa o lar, a família, a intimidade que protegemos do olhar curioso. E também é o nosso corpo e nossa mente. Não permite que ladrões e estranhos entrem, demarca limites. É a nossa aura. Por mais que seja bonita por fora, ninguém sabe como está o interior. Por fora, bela viola... Cuidado com as aparências.

Dentro dela há segurança, conforto, o amor dos outros membros da família. Dentro dela é possível ser você mesmo, passar o dia de pijama e sem maquiagem. A Casa protege a si mesma, ainda que coisas escusas aconteçam em seu interior. É o centro vital de permanência e liberdade, de descanso depois do esforço, de ser totalmente o próprio (1).

Uma família tende a proteger seus membros e, algumas vezes, esconde os segredos de um deles. Todos temos segredos de família. Algumas famílias colecionam até mesmo pequenos crimes. Na casa e no lar encontra-se a harmonia doméstica e a violência doméstica (1). Família não é aquela de sangue, apenas: é um grupo religioso, uma corporação, os colegas de trabalho. O local de trabalho é a casa para muita gente, pois é nele que passam a maior parte do seu tempo. Nem sempre nos associamos por afinidade e escolha, e somos obrigados a defender os interesses de outros que têm os mesmos interesses que nós. Ninguém corta o próprio braço se ele não comprometer seriamente a saúde do resto do corpo.

A carta inspira solidez, tradição. Uma casa pode durar vários séculos, pode ser o baluarte de um período arquitetônico, de uma era. Indica um período de estabilidade, de segurança.

A casa é uma armadura: um sobrenome, um cargo, uma máscara. Em paralelo com o Lenormand, ela pode passar de refúgio a mecanismo de defesa, da Casa (04) à Torre (19). 

 Novosibirsk Lenormand (fonte)

Quando está em casa negativa, mostra a insegurança, a falta de um teto, a falta de afeto e aceitação emocional. É quando o consulente fica sem chão. É a falta de raízes. O arcano apela ao primeiro chacra, aquele que nos sustenta e nos segura no mundo físico. Mal posicionado, pede cuidado com a maneira com que nos relacionamos com o nosso próprio corpo, com a matéria, com a nossa identidade grupal. Como anda a sua casa? Você negligencia o seu espaço pessoal? A limpeza, a decoração (tem a sua cara ou a cara dos outros membros da família)? É só um lugar onde você dorme ou é o seu refúgio? 

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(1) Martin, Kakhtleen. O LIVRO DOS SÍMBOLOS: Reflexões sobre imagens arquetípicas. Colonia: Editora Taschen, 2012. p. 556.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Denaro - 6 de Copas

Acabamos com as cartas que mostravam personagens e iniciamos um campo mais abstrato. Dinheiro, abstrato? Não é o próprio naipe de ouros, que representa o que há de mais concreto, a matéria bruta?

O que é o dinheiro? O valor do papel-moeda, do ouro e da prata não depende da matéria com que são feitos, mas da crença que depositamos nesses objetos: escolhemos algo para representar valor, e esse algo que representa o valor é o dinheiro. Nunca confunda: dinheiro não é o valor em si, mas seu símbolo. É um instrumento de troca. E esse jogo confuso entre valor e dinheiro bagunça a vida de muita gente, constrói e destrói relacionamentos, movimenta o consumo e o mercado, mata de fome, mata por matar. Alguns veem nele aquilo que ele pode comprar ou atrair: status, beleza, sucesso.

O Denaro pode dar a liberdade ao proporcionar experiências marcantes, e também retirá-la. Na imagem da carta, vemos um cofre escancarado e vários sacos de moedas e objetos de valor espalhados dentro dele e sobre a mesa. Não se sabe se estão colocando mais dinheiro no cofre ou se alguém acabou de abri-lo, roubá-lo e saiu correndo com o que pôde. Mas ele precisa de proteção máxima: um cofre pesado, com um código de acesso, no cômodo mais seguro da casa. Pois atrai não só o que é bom, mas pessoas interesseiras, sentimentos escusos, crimes, perigos. A precaução para não perdê-lo inclui evitar certos lugares e horários, contratar alarmes e sistemas de segurança que nos prendem em nossa própria residência. 

Positivamente, a carta simboliza o sucesso de empreendimento, o custeio de viagens, cursos, passeios. Aconselha o consulente a abrir uma poupança para dias difíceis. Ao lado da Consolante Sorpresa, dinheiro inesperado (e cuidado: dinheiro que vem fácil, vai fácil). Pode mostrar aquela última carta na manga para salvar uma situação, o dinheirinho embaixo do colchão, o troquinho achado na calça. 

Negativamente, o movimento contrário indica um desembolso de uma grande quantia. As cartas próximas mostrarão em que situação isso se dá: pagamento de despesas médicas, festa de casamento, viagem etc. Como energia altamente inflamável, seus efeitos são imprevisíveis: um gasto mal feito pode resultar em dívidas difíceis de se livrar. 

O cofre encerra as coisas mais valiosas, mas tira-as da vista das pessoas. Esse tesouro é aquilo que temos bem escondido, a faceta que escondemos de nós mesmos. Nosso desejo mais genuíno, o coração mole por trás de uma armadura. 

"Dinheiro, como energia, é uma substância neutra que toma a direção da intenção do indivíduo.(...) Pode imiscuir-se na psique humana como substituto para a força da vida." (Myss, Caroline, ANATOMY OF THE SPIRIT. Tradução livre)

Dinheiro é energia. E energia estagnada faz mal. Por isso a avareza, o acúmulo sem propósito não levam a lugar nenhum. Dessa forma, esse arcano contrasta com a Fortuna, que espalha o dinheiro sem ver para onde vai. É a energia em movimento que traz a Fortuna, e não o seu acúmulo. Veja bem: essa não é uma carta de Ouros, mas de Copas. Liga-se mais ao que valorizamos do que ao nosso bolso. Porque onde estiver o vosso tesouro, ali estará também o vosso coração (Lucas 12:34).