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domingo, 7 de junho de 2015

Mercante: o medo do que está fora de nós



Nas versões mais conhecidas da Sibila, o Mercante é apresentado como um estrangeiro carrancudo ou pensativo diante de sua mercadoria. Olha para o horizonte, para o mar, para os navios que zarpam e são promessas de negócios além-mar, de riquezas multiplicadas.

O Mercante, quando surge no jogo como uma terceira pessoa, aconselha ao Consulente que permaneça com um pé atrás. Quem não confie em tudo o que vê, que avalie duas, três, quatro vezes a situação.

O Mercante não é qualquer estrangeiro: é um árabe. Em tempos medievais, algumas cidades italianas eram prósperas pelo comércio com o Oriente. Traziam à Europa alguns confortos não disponíveis em tempos tão difíceis: especiarias, sedas, tapetes. Monopolizavam o comércio com os árabes, que estavam logo ali, do outro lado do Mediterrâneo. Esse monopólio levou Espanha e Portugal a buscar outras rotas de comércio com o Oriente, o que os acabou levando - entre outros lugares - à América. 

Ainda que lidem há muito tempo com os comerciantes árabes, o medo do desconhecido, do "maometano" cujas regras de conduta e meios de vida não condizem com a vida cristã e católica, sempre deixou os italianos - e os ocidentais em geral - desconfiados de tais interações. Quando pisavam num país estrangeiro para negociar, não estavam pisando em solo santo, seguro. Tudo poderia acontecer.

E até hoje, ainda que convivamos com esses estrangeiros em nossas próprias terras, o medo persiste. Afinal, que religião eles têm? Que roupas vestem? Herdamos uma rixa histórica entre cristãos e muçulmanos que vem da época das Cruzadas.



ASibilla ´800 traz outro árabe em suas cartas: o Ladrão. Como o Mercante, não conhecemos suas regras de conduta, não o consideramos parte do nosso mundo seguro e ético e queremos vê-lo o mais longe possível de nós. Suas ações, assim como as do Mercante, são dúbias e procuram tirar de nós mais do que queremos oferecer, sem que percebamos.

Esses personagens não representam necessariamente a "índole natural" desses estrangeiros. Eles dizem mais sobre nós do que sobre eles. Eles mostram nosso preconceito nutrido e, acima de tudo, nosso medo do desconhecido. Nosso medo de ser assaltado a qualquer momento, de ter nossas terras conquistadas (medo bastante presente na Europa do Leste durante as conquistas dos turcos otomanos), nossa casa devassada, nossos bolsos espoliados.

Não sugiro que as imagens sejam mudadas imediatamente. Somente que prestemos atenção ao que é real e ao que é projetado. Quando Mercante e Ladro aparecerem, lembremo-nos que estamos em território estranho. Que devemos pisar em ovos não porque os outros sejam perigosos, mas porque nós não conhecemos suas regras e modo de vida. Que nem todos aqueles que nos cercam compartilham os mesmos princípios que nós (corretos ou não) e podemos nos surpreender.


sexta-feira, 3 de abril de 2015

Quem tem medo da Desgraça?

Disgrazia é um nome tão forte que é até difícil traduzir sem arrepios. Esse 7 de Espadas, uma das cartas mais terríveis da Sibilla, impõe até mais medo do que a Morte, um pouco suavizada pelos tarólogos ao longos dos séculos.


O fogo queimando, se alastrando, o desespero que brota quando não se vê saída. O horror! E pode acontecer com qualquer um. Não depende de bom comportamento, confiança em Deus, caridade. O Edifício Joelma, incendiado em 1974, causa comoção até os dias de hoje. O incidente da boate Kiss, em 2013, também parou o país. Tememos com todas as forças tal sorte, rezamos pelas almas que pereceram.


A morte pelo fogo nos apavora como se fosse a expiação pelos pecados mais macabros, talvez por termos queimado tantos "hereges" em praça pública por séculos. E quando acontece com quem "não merece" tal castigo, nos perguntamos sobre a Justiça Divina, a maldade desse mundo e tantas outras coisas. Ainda não sabemos como reagir diante do fogo. Mas é possível diminuirmos nossa tensão diante de tal imagem? É possível aceitá-la, de certa forma?


Destruição?
Embora não tenha aparente afinidade ou conhecimento aprofundado da mitologia hindu, ela me aparece nos momentos mais inusitados. Em sonhos, em meditações, quando peço orientação e proteção... não é uma fada celta e ruiva que me ajuda, não é a sabedoria sombria de Hécate ou Odin que me socorre. É um Krishna azul que surge gigante num sonho, é Durga que se oferece para proteger os amados que estão longe. 

Em uma meditação guiada (que passou a guiar-se por si mesma), vi a terrível deusa Kali, cheia de braços e com sua língua debochada que delicia-se com o nosso pavor sair de uma caverna escura. Então ela começou a dançar freneticamente em meio a uma paisagem verdejante, suave e açucarada como o Paraíso cristão. Em poucos segundos, pegou a paisagem com as mãos e a descartou, substituindo-a por um deserto amarelo e seco. E, como se não bastasse, incendiou-o todo. Agora a deusa ria e dançava com mais vigor, por estava em casa. 


Kali é conhecida superficialmente como a "Deusa da Destruição". Um ocidental desavisado que a vê pela primeira vez pode chamá-la de "demônio". Mas ela é uma manifestação divina, como a desordem e o caos são divinos e têm o seu papel no universo. A destruição não só é inevitável como necessária (e, por vezes, aliada). Há momentos em que temos que deixar de lutar contra ela e simplesmente encará-la com profundo respeito.


Em meio ao fogo-cruzado
Vejo que minhas maiores conquistas aconteceram depois das mudanças mais sofridas. Sem as "desgraças", eu ficaria bem onde estava, confortável e feliz. Mas teria realizado muito menos. Não gostaria de passar por algumas situações novamente, é claro. Mas agradeço a cada uma delas, agradeço o papel fundamental que tiveram na minha vida. 


Numa cultura que só aceita o Bem e o Mal Absolutos, como lidar com a destruição que permeia nossa existência como algo inerente a ela, e não uma "bala perdida" que nos atinge em meio a luta do Bem contra o Mal? Como acalmar um consulente que, mesmo sem entender a linguagem do Sibilla, sentirá desconforto diante dessa imagem? 

Não dá pra esperar que o outro entenda o poder da transformação que há em Disgrazia se nós queremos sair correndo quando ela pula do baralho. Não dá pra se desculpar, embaralhar tudo de novo e fingir que a carta não existe. Então, concentre-se nas lições que essa situação trará, nas formas de sair dela e na força necessária para enfrentá-la. O consulente agradece. 

Lembre-se, como exercício de tolerância à Disgrazia, das lutas que enfrentou até agora, das dificuldades que pareciam insuperáveis e foram suportadas. Como saiu delas? Como elas te transformaram?

Se a sua vida tivesse sido sempre uma paisagem verdejante, suave e açucarada, onde você estaria hoje? 








domingo, 29 de março de 2015

Dom de Iludir


Não me venha falar na malícia
De toda mulher
Cada um sabe a dor e a delícia
De ser o que é

Não me olhe
Como se a polícia andasse atrás de mim
Cale a boca e não cale na boca
Notícia ruim

Você sabe explicar
Você sabe entender tudo bem
Você está, você é
Você faz, você quer, você tem

Você diz a verdade
A verdade é o seu dom de iludir
Como pode querer
Que a mulher vá viver sem mentir?




segunda-feira, 16 de março de 2015

As prisões que criamos ao longo do dia

Tirar Prigione como carta do dia não é uma experiência nada agradável. Mas esse desagrado traz também uma porção de questionamentos. Como, exatamente, ela pode se expressar? Você pode ficar preso numa reunião, no trânsito, preso do lado de fora de casa porque sua chave não funciona. 

Mas também criamos pequenas prisões ao longo do dia às quais estamos tão acostumados que nem nos parecem correntes. Em tempos de tensões políticas em nosso país, frequentemente ficamos presos a convicções, a crenças em soluções prontas (desde que sejam nossas). Também nos enredamos em discussões, ao vivo ou online. A postagem ou resposta malcriada do nosso amigo exige uma resposta? Então ficamos matutando a resposta, o rebate perfeito, a força que colocaremos no punho para que não haja sequer tréplica. As pessoas estão enlouquecendo, "pensando errado"? Passamos o dia nos dizendo "como isso é possível?" repetidamente, revoltados com tamanha falta de visão. Ligamos a TV e nos irritamos ainda mais com a parcialidade das notícias, com o sorrisinho e a indireta debochada do jornalista, com a seleção de notícias que não condiz com a nossa seleção pessoal de acontecimentos importantes no mundo.

Assim, ficamos tão presos à agitação mental que permeia nosso país que nos afundamos lentamente no ódio, no rancor, no inconformismo sem saída. Contribuímos, assim, com a densidade sufocante dos ares. Não achamos mais nosso amor, perdido em meio a tanta lama. Não encontramos o discernimento, o meio termo, tão preocupados estamos com nossos "oponentes" que há pouco tempo eram nossos amigos, nossa família. 

Essa foi a minha carta do dia. E esse post é pra mim. Mas pode ser pra você também.

Amor!

sexta-feira, 6 de março de 2015

Você não me ensinou a te esquecer


Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando te encontrar
Vou me perdendo
Buscando em outros braços seus abraços
Perdido no vazio de outros passos
Do abismo em que você se retirou
E me atirou e me deixou aqui sozinho



terça-feira, 3 de março de 2015

Disperato e os comportamentos auto-destrutivos

Disperato per Gelosia saiu-me ao menos duas vezes numa mesma semana. E essa carta, como outras tantas cartas nefastas dos diversos oráculos, parece estragar nosso dia no momento em que pululam do baralho, como uma profecia com realização garantida. 

Meus dias de Disperato, não sei se por sugestão ou previsão, nunca são fáceis. No entanto, não são dias em que aparecem problemas que me tiram do sério a ponto de dar aquela vontade de sumir. Noto que nesses dias eu estou com os pensamentos a mil, bagunçados, desencadeados, pouco racionais. Quando penso no sofrimento dos outros, sinto-os como se fossem meus. Por isso afasto-me dos grandes dramas e histórias tristes. Nesses dias, porém,  eu me torturo pensando mais "carinhosamente" no sofrimento alheio. O saldo do fim do dia é uma coluna vertebral despedaçada com tanto peso (geralmente alheio), o sono perturbado, os nervos à flor da pele. Provavelmente chegarei em casa e decidirei que tenho direito a uma bacia enorme de brigadeiro de colher. Mas drama mesmo? Uma grande desgraça? Nada acontece.

Nosso Disperato está prestes a acabar com a própria vida. Seus olhos esbugalhados nos fazem duvidar da sua estabilidade emocional. Não sabemos o que o fez chegar àquele ponto. Talvez não seja nada demais: ele é que não tem discernimento suficiente para calcular as suas reações às frustrações da vida.

 

Essas pinturas de Edvard Munch chamam-se, respectivamente, O Desespero e O Grito. Isso me intrigou no começo, pois a segunda imagem parece-me mais 'desesperada' do que a primeira. Mas o grito é libertador. O grito pode acabar com o desespero, com os fantasmas. O grito devolve, muitas vezes, as neuroses aos seus verdadeiros donos. O desespero é silencioso e devorador. O homem da primeira imagem está só em sua angústia e não a divide com ninguém (até pular da ponte, que se oferece tentadora).

Muitas vezes nos frustramos com qualquer coisa e descontamos, sem raciocinar, na comida, no cigarro, no choro convulsivo e dramático, na melancolia que desiste da vida. Em vez de liberar aquilo que precisamos, supliciamos o nosso corpo: tanto pelos "venenos" de que tanto gostamos e consumimos quanto pelas tristezas que se acumulam e viram uma doença, um câncer futuro. E esse matar-se lenta e irracionalmente não teria semelhança com a imagem da nossa carta?





segunda-feira, 24 de março de 2014

Disperato per Gelosia - 8 de Espadas

Em italiano, o nome da carta é bem sugestivo: Disperato per Gelosia (Desesperado por Ciúme ou, numa tradução mais florida, "louco de ciúme"). Há flores amassadas em cima da mesa, abaixo do retrato da pessoa amada. No Sibilla Della Zingara, as flores representam o amor, o coração, e vemos aqui um coração despedaçado. No entanto, acho que limita um pouco a expansão dos significados da carta. É uma carta do naipe de Espadas, o que nos leva a perceber que a confusão que leva ao desespero é mental, mais do que emocional. O ciúme, ainda que acreditemos ser um mal do coração, surge de uma imaginação fértil, e não necessariamente do amor que se sente pela outra pessoa. Não é preciso amar para ter ciúme, mas ter medo de perder alguém ou algo que a pessoa acredita possuir. As cartas vizinhas mostrarão o motivo do desespero.

Assim como Disgrazia, é uma carta que dá muito medo (se uma acompanhar a outra, então...) por representar uma situação extrema. Mas aqui, ao contrário daquela, vemos que o personagem ainda pode ter controle do que vai acontecer. O dedo dele está no gatilho e só ele pode dispará-lo.

Se Disgrazia vier antes, o desespero se dá por um acontecimento desestruturante na vida do Consulente.

Se Disgrazia vier depois, as atitudes extremas do Consulente é que podem fazer com que o desastre tome lugar. 


Não se pode dizer que ele está mergulhado nas circunstâncias e não tem saída. O quadro na parede não é muito claro, mas eu enxergo nele (e aqui entra a minha imaginação) um caminho em meio ao bosque, como a carta Caminhos do Lenormand, que representa justamente os caminhos abertos, as saídas alternativas:


Logo, Desespero mostra mais uma perturbação mental que pode passar num instante do que uma situação realmente desesperadora, sem saída. Por isso, essa é mais uma carta com a qual é preciso ter cuidado numa consulta, a fim de que o Consulente não comece a ficar alterado só ao ver o arcano. É hora de respirar fundo, rever a situação e tirar cartas de aconselhamento. Assim, quando o acontecimento mostrado no jogo tiver lugar, o Consulente já tem ideia do que fazer.






quarta-feira, 19 de março de 2014

Dispiacere - Ás de Espadas


Uma mulher aos prantos apóia-se no muro. Uma carta ainda pode ser vista em suas mãos. Será a motivadora da imensa tristeza? Esse é o momento em que o coração acaba de ser despedaçado (lembre-se de que ela pertence ao naipe de Espadas). As rosas desabrochadas indicam que ela já viveu o amor, mas uma das rosas foi arrancada e jogada longe. Sua echarpe cobre um baixo relevo no muro que sugere o abraço de um casal apaixonado. A presença da água na imagem completa a informação: é uma dor de amor. Esse arcano me lembra a imagem do 3 de Espadas do tarô de Waite-Smith: não é possível sentir as espadas perfurarem nosso coração só de olhar pra imagem?

Não é possível saber se ela vai se acalmar ou entregar-se ao desespero. A carta seguinte dará uma pista:

Dispiacere + Sospiri: o Consulente se acalma, mas continuará alimentando a ferida. Talvez se acostume tanto com a dor que não consiga mais viver sem ela. Não é um bom sinal. É preciso procurar ajuda para que a ferida aberta não leve a pessoa a adoecer o corpo e o espírito.


 Dispiacere + Disperato per Gelosia: situação perigosa! O melhor a fazer é tirar cartas de conselho e buscar uma saída para a situação antes que o desespero se instale.


Dispiacere + Malinconia: o Consulente pode não alimentar as lembranças que trouxeram a tristeza (como em Tristeza + Suspiro), mas a depressão tomará lugar. O trauma faz com que o Consulente não saiba mais lidar com certas situações, e outras áreas da vida serão afetadas.


Dispiacere + Morte: haverá uma ruptura necessária na questão, ainda que dolorida. Recomenda-se tirar outras cartas para saber o que se dará depois da ruptura.


Dispiacere + Gran Consolazione: apesar da dor, o Consulente receberá um remédio que a alivie. Terá ajuda de pessoas queridas ou ajuda espiritual.


Dispiacere + Dottore: o Consulente procurará ajuda para superar momento tão difícil. Sua atitude é positiva e trará bons resultados, ainda que lentos.


Dispiacere não é uma carta desejável em nenhuma leitura. A carta da Morte pode ser boa ou ruim dependendo do que acaba, mas Dispiacere diz que a dor é certa. No entanto, não é um momento duradouro. Certas emoções não conseguem persistir por muito tempo. É preciso construir o caminho da recuperação dessa dor junto com o Consulente, com delicadeza e paciência.


sexta-feira, 14 de março de 2014

Sospiri - 6 de Espadas

Uma mulher à beira do mar olha para a imensidão azul com certo pesar. Ninguém morreu: uma pessoa amada foi embora e está distante. Ela suspira por ele, com o peito apertado de tanta saudade. Uma rosa está caída ao chão, vulnerável a qualquer pisada descuidada. Apesar da saudade, ela acalenta uma esperança: o retorno de seu amado. Não sabemos a quanto tempo ela está ali: ele pode ter acabado de partir. Alguns anos podem ter se passado, e ela vai lá todos os dias esperar por ele. Como uma viúva que espera que o seu marido ressucite. Suas roupas são negras como as de uma viúva, mas - ao contrário dela - a moça dessa carta tem desejo e esperança.

Em outros baralhos ciganos, como Zigeunerkarten, o nome da carta equivalente é Desejo. Um desejo que queima e não pode ser realizado, ao menos imediatamente. Um desejo que pode se tornar Frustração.
Desejo (Zigeunerkarten)

Se ela espera, assim como o arcano Belvedere, qual a diferença entre as cartas? Como já exploramos anteriormente, Sospiri diz respeito ao passado, e Belvedere olha para o futuro. E quais as consequências dessa mudança de perspectiva com formas parecidas? Belvedere volta-se para o que está por nascer, para as possibilidades reais, uma vez que seu pensamento pode criar o que quiser, sendo positivo e forte. Sospiri debruça-se sobre o que já morreu. Só ela não se deu conta ainda. Até mesmo sua roupa é de luto (será que ela percebeu que está enlutada?). Suas energias estão concentradas em algo que não pode mais dar frutos, um corpo em decomposição que precisa ser enterrado para não espalhar doenças. O Vedovo sabe que o tempo acabou, e guarda a memória do passado com reverência e limites: o passado está devidamente enterrado diante dele. O ritual de passagem foi feito.

Sospiri não sabe o que fazer. Nesse momento, estamos aguardando notícias do avião da Malaysian Airlines que desapareceu com centenas de passageiros. Os familiares não sabem o que esperar. Não sabem se devem considerar seus queridos mortos ou não. Ainda que os anos corram, sem um corpo para chorar e sem notícias do paradeiro dos desaparecidos, a esperança de revê-los nunca se esvai, e a ferida nunca é tratada. Quem tem parentes e amigos desaparecidos sabe que a dor não passa, que é muito confuso declarar a morte do que não se conhece.

Mas essa carta não se refere apenas a pessoas desaparecidas. Muitas vezes lamentamos em cima de algo que se foi, mas não aceitamos a sua partida. Um amor antigo, fortuna perdida, uma era de ouro que ficou no passado. São pessoas que vivem como se aquilo não tivesse chegado ao fim, e dessa forma vivem num limbo temporal que pode acabar em loucura e confusão mental (note que é uma carta de Espadas). E quando se dão conta de que aquilo passou, não sabem o que fazer: como uma pessoa que dormiu por 10 anos e acordou agora, com as referências de mundo que tinha antes de dormir. E ela pode acabar optando pelo seu mundo de fantasias doentias do passado, pois torna-se incapaz de viver o Agora.

O que você devia ter enterrado e não enterrou? Somos ensinados a iniciar coisas, mas não a abandoná-las no tempo certo. No entanto, saber encerrar ciclos é essencial para a nossa saúde mental, espiritual e até física.


domingo, 9 de março de 2014

Disgrazia - 7 de Espadas

Um prédio antigo arde em chamas, irrecuperavelmente. Os bombeiros tentam apagar o incêndio com mangueiras d'água, mas terão bastante trabalho pela frente. Ao fundo, vemos um homem que se joga. Não sabemos, no entanto, se uma cama elástica o espera lá embaixo ou se ele, no desespero, preferiu uma morte menos agonizante. 

Essa é uma carta de má sorte. Uma mudança nada benvinda. Na verdade, ela assusta um bocado. É um alerta para que o Consulente busque ajuda, mude imediatamente de rumos. 

Quando tiramos as cartas, elas mostram as consequências futuras de nossos atos passados e presentes, e a combinação de elementos que temos hoje. Se temos banana e leite, só podemos fazer vitamina de banana, e não uma torta salgada de frango. Sabemos, ainda, que a banana nos faz mal. Não dá tempo de jogar a banana fora e ficar só no leite? Somos obrigados a fazer a vitamina de banana só porque temos banana e leite?

Da mesma forma, quando essa carta sai indicando o futuro, o Consulente ainda pode rever os caminhos que o levaram até ali. E ele pode, sim, mudar esse futuro. Não é porque podemos vislumbrar o futuro nas cartas que ele é inevitável. Uma mãe sabe que seu filho vai se machucar ao brincar correndo na rua. O filho corre, tropeça e cai. Mas a mãe, por saber o que aconteceria, provocou a queda do filho?

Ainda assim, a carta mostra possíveis saídas. Aquele homem que se joga pode se salvar sem nenhum arranhão, se cair numa cama elástica. Vai saber. O Consulente também pode estar representado pelo bombeiro. Ele pode ser chamado a ajudar numa situação limite. Isso pode ser no trabalho, em casa, na família. "Apagar incêndio" refere-se àquelas situações-problemas em que só nos resta salvar o básico. São problemas que surgem do nada, geralmente por uma negligência passada, que devem ser resolvidos imediatamente para que o fogo não se espalhe. 

As cartas em volta indicarão o tipo do problema, o papel do Consulente (vítima ou salvador) e a extensão dos estragos. Ainda que o arcano mostre uma situação catastrófica, é preciso lembrar que tudo passa, e às vezes é preciso destruir para limpar de vez uma área da vida. Essa destruição pode impulsionar uma mudança que antes o Consulente não tinha coragem de engendrar. 

Quando descreve alguém, a carta mostra uma pessoa explosiva, que perde facilmente a cabeça. 

Há coisas cobre as quais não temos controle. Tampouco explicação. Só nos resta esperar que a tormenta passe e recolher os cacarecos que sobram. Temos o desejo de ter o controle de tudo: passado, presente e futuro. Muita gente, quando procura um cartomante, intenciona não perder o controle de nenhum aspecto de seu futuro ou das pessoas que o cercam. O descontrole nos deixa chocados, menos humanos, revoltados. Nos faz duvidar de Deus, da humanidade e de nós mesmos. É o desespero. 

Essa situação é bem retratada no filme Um Homem Sério, dos irmãos Cohen:



quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Morte - 5 de Espadas

Velha conhecida de todos os que lidam com cartas divinatórias, a Morte simboliza o Fim, mas seguido de um novo começo. A cultura ocidental desenvolveu verdadeiro pavor dessa Passagem, talvez pela descrença cristã na reencarnação, o que nos daria apenas uma vida para colocar tudo em pratos limpos a fim de merecer o Reino dos Céus. O fim do prazo nos exaspera, pois depois do gongo final não haveria mais chance. Além disso, a peste bubônica espalhou pânico pela Europa, e o contato com a morte - apesar de cotidiano e abundante - só aumentou o medo da Ceifadora. O Anjo da Morte e a Dança da Morte são temas comuns na arte da época. A Morte e sua foice cortando qualquer esperança, trazendo o desespero e até mesmo o questionamento sobre o Amor Divino. Pois se Deus é inteiramente Bom, como permitiria tamanha injustiça, cortando o tempo na Terra e diminuindo assim as chances de se fazer o Bem, de pagar os pecados e morrer completamente limpo? Tal abalo foi responsável pela passagem de uma sociedade de uma Era a outra. A peste mudou a Europa e, indiretamente, o mundo. E é esse o efeito desse Arcano: a mudança.

A imagem da Sibilla Della Zíngara é implacável: o Anjo da Morte procura sua próxima vítima. Carrega a foice - seu instrumento de trabalho - em uma mão, e um crânio na outra, como um troféu. As cartas ao lado mostrarão o que está sendo cortado. Essa figura faz alusão à Foice do Lenormand, e reforça seus significados: corte, fim necessário e inevitável, colheita.

Já a Vera Sibilla Italiana tem uma imagem que me causou muito assombro: um caixão apoiado por duas
cadeiras eu uma vela enorme cujo fogo abundante provoca uma fumaça considerável no ambiente fechado. A cena parece saída de um livro do século XIX, com o seu ar macabro e sufocante. Quase podemos sentir o cheiro da cera derretida misturada à decomposição. As cadeiras mostram um arranjo improvisado, remete-nos aos velórios feitos em casa e regados a café e biscoitos, atraindo a vizinhança morbidamente curiosa. 

Vi um velório desses uma vez, em Curitiba, na casa vizinha à da minha bisavó. A sensação de trazer a morte para dentro de casa assusta, mas também a transforma a nossa percepção e nos obriga a enxergá-la em sua proporção real. A morte é parte da vida, e devemos integrá-la. 

A imagem da Vera Sibilla é semelhante ao Caixão do Lenormand, que significa transformação, transmutação. Representa o primeiro estágio alquímico - nigredo - a morte espiritual. Nigredo significa "escuro", é o estágio da putrefação da matéria que se torna fertilizante para um novo nascimento. Não é possível chegar à iluminação, o último estágio, sem morrer primeiro.

A decomposição de uma situação que não se sustenta mais. Em vez de lamentar-se sobre o horror dessa decomposição, devemos vê-la justamente como esse fertilizante. Esses componentes decompostos e rearranjados trarão à luz um novo ser, um novo espírito. 

O luto não é o foco desse arcano: ele é mais presente na carta Il Vedovo. O foco é o fim e a transmutação. É uma carta de esperança, na minha opinião. De crescimento real.





quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Sacerdote - 13 de Espadas



Assim como o Papa do tarô, o Sacerdote inspira, num primeiro momento, certa desconfiança. Muitos pensam nas amarras da Igreja, seus preconceitos, sua história nebulosa. Mas antes de condenar preconceitos da Igreja, observemos nossos próprios preconceitos para extrair o melhor desse arcano.

Vemos um padre lendo atentamente um livrinho vermelho. Ele está cercado por muros, provavelmente de um mosteiro. Esses muros isolam-no da vida exterior. Porém, ao contrário da carta da Prisão, seu encerramento é voluntário. O Sacerdote até mesmo dá as costas para o jardim interno, recusando a vida que abunda a seu redor. Afinal, sua atenção não se volta para a vida mundana, mas para a Vida Eterna. Ele não está preso ao mosteiro: está livre do Mundo.

Provavelmente procurou um lugar para ficar sozinho em comunhão com Deus. A sua leitura não me parece atenta, como a de alguém que lê um livro interessantíssimo. Ele até mesmo ergue um pouco a cabeça, como se fizesse pose de leitor. O conteúdo do livro não deve ser novo: talvez salmos para meditação. Se o Sacerdote abrir a boca, imagino-o falando lenta e pausadamente, como aqueles que querem parecer sábios. A Vecchia Signora também tem um livro vermelho consigo. E, assim como ela, o Sacerdote está em paz consigo mesmo.

Um Sacerdote é também um mediador entre o Céu e a Terra. Dedica-se à vida espiritual, no lugar daqueles que não podem fazer o mesmo. Estuda e medita para trazer mensagens em seus sermões e conselhos. Assim, o arcano sugere o conceito de Conselheiro: uma pessoa sábia, que dedica-se exclusivamente a refinar a sua sabedoria e a reforçar o canal com a divindade, a fim de compreender melhor os padrões do Universo e ajudar os outros. Veja-o como um Guia que ajudará o consulente numa questão importante.

Em algumas situações, a carta pode sugerir um retiro do mundo, espiritual ou mental. Férias. Só assim se pode refletir e evoluir interiormente.

E o que o Sacerdote ganha com isso? Na verdade, ele obedece a um chamado. Seu trabalho é uma missão à qual dedica seu espírito. Da mesma forma, a carta representa uma pessoa que carrega uma missão, ou pensa carregar uma: em relação ao seu trabalho, à família, à religião etc. Dedica-se com afinco, com paixão. Pode até mesmo exagerar. É aquela pessoa que trabalha pelo “bem maior”. Só que, ainda que seja muito bonito, essa suposta missão pode ser uma ilusão de uma pessoa só, não compartilhada pelo seu próximo. Ao entregar-se a um trabalho de corpo e alma, essa pessoa poderá abandonar a vida em si: sua família, amigos e até a si mesmo. Vale a pena?

Algumas pessoas encerram-se num convento ou mosteiro como penitência por uma vida de pecados. Por isso, é bom atentar-se para a possibilidade do consulente estar negando indevidamente a vida, proibindo-se de sentir prazer ou de tomar uma decisão que deseja fortemente, mas acredita ser pecaminosa: assumir a sexualidade, divorciar-se, mudar de cidade e afastar-se da família, abandonar um emprego seguro para investir num sonho etc.

Em seu pior aspecto, o Sacerdote aproveita-se de seu poder sobre as pessoas para mandar nelas. Certo de que é o representante de Deus na Terra, pode constranger muita gente a assumir posturas que não desejam. Esse é o Sabe-Tudo, que reforça a sua pose de Iluminado para manipular os outros. Ele não aceita recusa, não dialoga com ninguém, não ouve ninguém. Somente o seu ponto de vista é o certo e a sua palavra é a última. Teimoso como uma mula, não enxerga nada ao seu redor. A intolerância daqueles que acreditavam ser receptores das mensagens divinas provocou imensos estragos no mundo. E ainda provoca.

Outro problema do Sacerdote é que ele, por ser tão "iluminado", não aceita a própria Sombra. Todos nós somos luz e escuridão, e se não vemos a escuridão em nós, ela é projetada nos outros. Vemos maldade e degradação nos outros, e acreditamos que somente nós somos puros. As críticas amargas que lançamos podem nos afastar cada vez mais das pessoas e, quando menos esperamos, estamos sozinhos. Mais uma vez, o aspecto negativo da carta implora pela tolerância conosco e com os outros.

Um filme que explora o que discutimos aqui é Dúvida (Doubt), de Patrick Shanley. A diretora de uma escola religiosa lança suspeitas sobre o padre, que tem uma relação próxima com um aluno negro. Mesmo que o padre lhe explique a relação inocente que tem com o menino, a freira não acredita e luta para afastá-lo da escola. Para ela, todos têm algo de podre a esconder, são dominados pelo lado obscuro, e sempre há segundas intenções por trás de tudo.

O filme revela tanto os aspectos bons do Sacerdote, por meio do padre Flynn, quanto os aspectos sombrios, na figura da irmã Beauvier. Recomendadíssimo!

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Il Vedovo - 3 de Espadas



O homem tem tanto medo da morte quanto da solidão. O Vedovo fala desses dois medos. A carta, no entanto, não fala em desespero. Temos um arcano para isso. O arcano traz consigo certa inércia, a atmosfera que nos cerca depois que a poeira de uma perda já abaixou. E quem já perdeu um ente querido talvez entenda que esse período - que pode se estender por longos anos - é bem mais doloroso do que o desespero que se segue imediatamente à morte.

O homem leva uma coroa de flores para o túmulo de sua esposa. Não sabemos se ele a enterrou há uma semana, há alguns meses ou há muitos anos. Ele continua homenageando a memória de sua querida companheira, e não demonstra intenção alguma de arrefecer sua saudade.

Dizem que o luto tem cinco fases, e cada uma delas tem uma duração indefinida: a negação (não acreditamos na perda), a raiva (nos revoltamos com a perda), a negociação (geralmente com “Deus”, para que superemos a perda ou para que ela se anule), a depressão (a consciência de que a perda é para sempre) e finalmente a aceitação.

A carta pode significa o luto pela morte literal de alguém. Dependendo da proximidade com a pessoa falecida, a dor não passará. Apenas diminuirá, e nos acostumaremos a ela. 

O viúvo é também uma pessoa que vive sozinha. A carta representa pessoas solitárias por opção ou não. Alguém que não está com ninguém, que vive longe da família ou divorciados. Alerta para a possibilidade do consulente estar isolado demais, evitando que outras pessoas entrem em sua vida ou até mesmo recusando um pouco de luz do mundo. A convivência com outras pessoas nos ensina a ser tolerantes e amáveis, além de proporcionar o aprendizado ao qual nunca chegaríamos sozinhos. 

Porém, a morte não simboliza apenas a morte física: qualquer mudança, fim de relacionamento, rito de passagem implica uma morte e o luto que se segue. Ainda que a mudança seja positiva, levamos algum tempo para nos acostumar à nova realidade. Mas se a mudança não foi desejada, haverá resistência.

Enquanto nos lamentamos pelo passado, transferimos nossa energia para um buraco negro. Depois de um tempo de perda de energia, a depressão é inevitável. E as doenças também. Por isso é preciso prestar atenção quando essa carta sai em uma tiragem: estarei preso a uma situação ou pessoa do passado? Preciso continuar preso? Como isso me afeta?

Obviamente, o corpo de uma pessoa ou animal morto deve ser enterrado, cremado. Se ele ficar exposto e próximo de nós, causará primeiro mal cheiro, depois espalhará doenças. Da mesma forma, se uma situação deve ser encerrada, devemos enterrá-la. Os antigos romanos tinham como um curioso castigo: a necroforia. Um cadáver era atado a um criminoso, e este tinha que carregá-lo enquanto o corpo se decompunha. Em pouco tempo, o condenado morria em consequência das doenças e do horror. Segurar um emprego, um relacionamento, um sentimento que já deu o que tinha que dar pode acabar nos adoecendo de verdade. Muitas doenças sérias, como o câncer, nascem do nosso lamento, do nosso desgosto, de uma coisa ruim que ficamos acalentando.

No entanto, podemos vislumbrar um leve sorriso no rosto do Vedovo, pois – imagino – recorda-se dos bons momentos que viveu com sua amada. Positivamente, a carta aconselha o respeito e o carinho pelas pessoas falecidas e pelo nosso passado. Servem-nos de referência e modelo. Somos hoje o resultado de tudo o que vivemos, e devemos honrar essa experiência. 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Il Nemico - 11 de Espadas


 Um mosqueteiro esconde-se sob uma árvore e prepara-se para atacar uma pessoa que vem desprevenida pela rua. Ele quer roubá-la? São conhecidos? Por qual motivo o Nemico quer prejudicar essa pessoa?

Ele não vai atacar por necessidade: suas roupas são caras, é um homem abastado. Não precisa roubar. Além disso, ele sorri: prevê a reação assustada de sua vítima e delicia-se com isso.

Vimos que a Nemica quer acertar contas com alguém que a prejudicou. O Nemico, não. Ninguém lhe fez mal algum. Ele age sorrateiramente para atacar, e não para encarar alguém e pedir explicações emocionadas sobre uma situação mal resolvida do passado. Ele age por inveja, despeito. Alguém é mais bonito, mais inteligente? Ele odeia. Essa pessoa merece morrer.

Espelho, espelho meu... Existe alguém mais incrível do que eu?

Percebemos na imagem da carta que a vítima está distraída. Ela não percebe que corre perigo e está pouco se lixando para o que o Nemico pensa dela. Já o Nemico sabe por quais caminhos ela passa, em quais horários. Ele está de olho há muito tempo. 

O arcano nos alerta para prestarmos mais atenção às pessoas que nos rodeiam: que tipo de sentimentos você desperta nelas? Mesmo que tente ser uma boa pessoa, outros podem te odiar simplesmente pelo que você é e pelo que você tem. 

O Nemico é uma pessoa profundamente invejosa, emoção bastante vulgarizada (se alguém não gosta da gente, dizemos logo que "isso é inveeeeja"), mas pouco explorada em sua profundidade. Uma pessoa invejosa nem sempre quer roubar para si o que o outro tem: ela quer que o outro simplesmente não tenha aquilo, de preferência que o perca de forma dolorosa. Ela não ganha absolutamente nada com aquilo. Ela não tem o que o outro tem. Para ela, isso expõe a sua própria fragilidade. O invejoso é extremamente inseguro e vaidoso. Ele não quer ser uma pessoa forte, evoluída: ele quer que todos sejam mais fracos do que ele. O problema é que ele já é muito fraco, o que torna muita gente o alvo do seu despeito. Em outras palavras, ele quer simplesmente baixar o nível.

A diferença entre o Nemico e o Ladro é que o Ladro quer ter lucro no roubo, e ele só vai se arriscar - e machucar pessoas - se valer muito a pena. O Nemico é imprudente: ele quer prejudicar sem conseguir nada em troca, apenas um alívio ilusório. Acontece que, muitas vezes, ele nem se atenta para as consequências de seus atos. Se houver riscos, ele não os calculará ou minimizará, pois a sua vontade cega de prejudicar é incontrolável e ele precisa saciá-la. Nesse caso, o feitiço pode virar contra o feiticeiro. 

Mas não é porque o Nemico é imprudente e pode se dar mal que o consulente vai ignorá-lo. Vejam: ele carrega um florete na bainha. Antes que a Justiça Divina seja feita e o Nemico se lasque, a Vítima pode sair bastante machucada, ou até morrer.

O Nemico é o Traidor: o companheiro, amigo ou sócio que não tem motivos para agir pelas suas costas, mas age. E uma traição dói, não dói? Ainda que você corte o traidor da sua vida, ele causa estragos que podem ser permanentes.

Ainda assim, a carta pode indicar outro tipo de Nemico: o interior. A nossa sombra, nosso sabotador interno, relegado aos guetos da nossa mente. Esse foi criado por nós, não tem jeito. Ou o aceitamos e o integramos, para que ele se torne nosso aliado, ou seremos eternamente atacados por ele. 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Militare - 10 de Espadas


Vamos agora adentrar no mundo masculino. Também começando pelos mais jovens: o Militare, com sua farda impecável, o peito estufado, a imaginação - ao menos - nos campos de batalha. Percebemos, pelas bochechas rosadas, que ele mal saiu dos cueiros. E pelo olhar esperançoso, de olho no futuro, fica claro que ele nunca lutou de verdade. Não sabe o que o espera, exceto pelos livros que leu, pelos filmes que assistiu (Apocalipse Now não está entre suas referências). 

Atrás dele vemos as muralhas do forte e uma nuvem de areia que se levanta. Parece-nos que ele acabou de chegar no local de batalha, um deserto em algum lugar do mundo (penso na presença dos italianos em Trípoli, Líbia, mas essa informação só situa a inspiração da imagem). Por enquanto, ele está protegido pelos muros. Muito animado pelo fato de, pela primeira vez na vida, vislumbrar a real possibilidade de tornar-se um herói. A guerra será o seu rito de passagem para a vida adulta. E está tão entretido com suas visões do futuro que nem percebe a nuvem de areia que poderá engoli-lo. Aliás, ele pensa que é só uma nuvem de areia. Acostumado com os campos verdejantes e a suave brisa de sua terra natal, ele ainda não sabe o que isto aqui:

Simum, como é chamada uma tempesdade de areia no deserto

E muito menos isto:


E por quais motivos escolheu a vida militar? Ele quer sentir que pertence a algo. Por isso buscou uma instituição rígida, cheia de regras, que lhe servisse de norte. Ele ainda precisa ser doutrinado, orientado. Antes, precisava dos amigos em volta para ser corajoso. Agora, prefere confiar em uma autoridade, a quem obedecerá cegamente. 

A confiança dele assenta-se sobre um uniforme, não sobre seu caráter. O uniforme é sua máscara e sua fortaleza. Sem isso tudo, ele não tem forças para aceitar-se. 

Ele é obediente, mas não porque tem senso de dever. Só quer ser alguém, como a autoridade que está acima dele e que tanto admira. Não sabemos se ele serve por amor à pátria ou por reconhecimento. 

A partir disso, podemos concluir que essa pessoa tem vantagens e desvantagens. Ele tentará fazer o seu melhor para nos defender, mas será que sabe manejar aquela arma? Ele quer fazer tudo certo. É disciplinado, está disposto a superar seus limites. O futuro promete. Mas a carta mostra-o hoje, jovem e inexperiente. 

No jogo, pode representar um militar, obviamente. Mas também alguém que se agarra ao seu cargo, ao seu título (coisa muito comum aqui em Brasília). Sabe aquele moço que passou num super concurso aos 22 anos de idade, vira chefe de gente bem mais safa e nem cabe direito no terno? Alguns terão pena, outros terão raiva, e outros ainda enxergarão nele um jovem promissor, que só precisa de uma ajudinha para se situar. Pode ser o filho do dono da empresa que começa a aprender administração. 

Também representa os aprendizes disciplinados, que confiam na destreza de seus professores e chefes. Às vezes somos muito imaturos para entender certas coisas. Podemos questionar por hábito ou podemos nos calar para ruminarmos melhor as motivações de certos ensinamentos e certas ordens. Hoje em dia, a obediência cega não é valorizada, mas é exigida em certos meios - profissionais, religiosos, esportivos - e pode render bons resultados.

Desobedecer Pai Mei é pedir pra morrer, mané!

Porém, tanta disciplina pode esconder um puxa-saco. Alguém que faz aquele trabalho que fica mais bonito pro chefe, mas não quer nem saber dos bastidores. Ele quer mesmo é aparecer. Não conte com a sua ajuda no trabalho pesado, muitas vezes mais necessário do que o beija-mão cotidiano.

Se aparecer em uma posição negativa da tiragem, pense em alguém que é incapaz de manter a sua palavra, um compromisso qualquer. Ou também num rebelde sem causa, que tem asco a qualquer coisa que evoque ordem.

Concluo com uma citação retirada do Livro dos Símbolos, obrigatório na cabeceira de qualquer um que estude o tarô, o lenormand, as sibilas:

"...mesmo aqueles que nunca foram soldados sonham que são soldados, que necessitam de disciplina militar, coragem e resistência para ultrapassar uma provação ou completar uma tarefa particularmente difícil." (p. 472)

Mentalize o Militare quanto tiver que respirar fundo e enfrentar uma situação difícil. Ele não sabe que a tempestade de areia vai pegá-lo. Mas certamente sairá vivo e fortalecido dela. 



Bibliografia inspiradora:

Martin, Kakhtleen. O LIVRO DOS SÍMBOLOS: Reflexões sobre imagens arquetípicas. Colonia: Editora Taschen, 2012.


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

La Nemica - 12 de Espadas


O título é bastante sugestivo, e ela ainda tem um companheiro no baralho: il Nemico, o Inimigo. No entanto, não é apenas a sua contraparte feminina. Sua maneira de lidar com os inimigos é diferente. Ela quer encarar a pessoa que a fez sofrer. Ela quer perguntar por quê. Ela quer vingança. 

A mulher entra sorrateiramente por uma porta aberta, aproveitando-se da oportunidade. Será a casa de alguém? Ela está atenta ao exterior, preocupada com a possibilidade de ser pega. Veja a ansiedade em seu rosto! O que ela vai fazer lá dentro? Vai cobrar explicações? É uma serviçal despedida que vai reclamar seus direitos? Vai roubar um bebê (a Inimiga está em todas as novelas)? Ela se cobre com o manto e usa um chapéu, como se quisesse disfarçar a sua identidade. Mas ela não sorri. Se não tivesse sido prejudicada, ela não estaria ali tentando prejudicar alguém. Ela foi obrigada pelo destino. Ó, céus!

Essa é uma carta de acerto de contas. Como veremos mais à frente, o Nemico simplesmente quer sacanear alguém que nada fez a ele. A Nemica sofre com o que tem que fazer, mas sabe que não pode deixar barato. Em algumas ocasiões, chegamos a entender perfeitamente o seu ponto de vista. 

Quem assistiu Kill Bill, do Tarantino, sabe do que estou falando. Mexeram com a cria de uma leoa? Terão o que merecem. E nos deliciamos com a carnificina daquela gente má, sem coração, que obedece as ordens mais absurdas. Beatrix Kiddo mata por um motivo maior, não? Primeiro para se vingar do antigo amante, depois para recuperar a filha. Estamos falando aqui de emoções, de facada nas costas, de traição. Não se faz isso com alguém, cara!

Lady Vingança, do sul-coreano Park Chan-Woo, tem motivações similares. A protagonista e o namorado fracassam ao sequestrar uma criança. O namorado escapa, já que ela confessa toda a culpa. Depois de anos presa, ela quer acertar as contas com o traidor, é claro. 

 

No tarô, temos a Rainha de Espadas. Geralmente, representa uma mulher magoada, uma viúva, alguém que foi abandonado ou sobreviveu a uma tragédia e hoje carrega consigo a mania de ferir a todos os que se aproximam, na tentativa de aliviar a própria ferida.
                                                                                                                    
Sempre a imagino grávida de uma sangrenta vingança...


Se o consulente está devendo alguma coisa a alguém, é melhor ficar ligado. Essa pessoa está voltando. O problema é que, muitas vezes, o consulente nem sabe que fez mal a alguém. Talvez nem tenha feito. Mas levou a culpa. Nesse caso, a carta pede cuidado dobrado, pois estamos lidando com a Eterna Vítima. 

A Eterna Vítima nunca faz nada de errado. Ela é obrigada a fazer. O mundo conspira contra ela. Tudo é sempre culpa de alguém, não dela. Pois o que ela faz é por amor, por medo, por ignorância... sempre há uma desculpa. Mas quem pensa que ela tem peninha dos outros? Na hora da caça às bruxas, ela aponta qualquer pessoa pra salvar a própria pele. E como chora, como se faz de coitada!

E como estamos falando em vitimização, pode ser que o consulente não seja o alvo da Nemica, mas a própria. Dependendo das cartas que a rodeiam, é melhor que ele tire o cavalinho da chuva, não tente atrapalhar a vida de ninguém e reveja os seus motivos. Terá sido realmente ofendido por alguém? Precisa mesmo fazer o que acha que deve fazer? As consequências podem ser nefastas, pois a Nemicanem sempre tem a frieza do Ladro para se safar de situações complicadas.