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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Donna di Servizio - 8 de Ouros


Todo mundo sabe que não se pode ignorar o mordomo da mansão, certo? Aquela pessoa que está sempre presente, mas que todo mundo esquece que tem ouvidos e boa memória. A serviçal não tem nome, não tem história e, ao vestir um uniforme, deixa de ser um indivíduo. A "invisibilidade" chegou a ser tese de mestrado de um estudante da Universidade de São Paulo: ao vestir um uniforme de gari, até mesmo seus conhecidos passavam por ele e não o reconheciam (mais detalhes aqui). O mesmo acontece com o nosso arcano. Como o Militare, ela acata ordens sem questionar. Sem a esperança, no entanto, de um dia tornar-se heroína.

Mas não é preciso ser doméstica para passar por isso. Quem se esconde na baia de um escritório entende o que eu estou falando. O trabalho é bem feito, mas os louros não vão ficar com alguém que ninguém sabe quem é, certo? Somos invisíveis em muitas fases da vida. Às vezes preferimos ficar assim. Sob esse aspecto, a carta representa aquele trabalho repetitivo, nos bastidores, sem reconhecimento.

E se ela praticamente não existe para nós, talvez queiramos que ela seja assim. É confortador. Alguém que ganha pouco, não tem muitas escolhas e que não abre a boca para nos contar o rosário de desgraças da vida dela: a vida que nunca melhora, o ônibus sempre lotado, o dinheiro que não basta, o filho doente, o marido que bebe. A Donna di Servizio pode representar a divisão de classes (se estiver ao lado do Gran Signore, principalmente), a imensa massa de proletários que trabalha calada e dificilmente mudará de vida, a despeito dos sonhos de ascensão social vendidos nos meios de comunicação.

Também temos a Serviçal Raposa (pedimos aqui um empréstimo do Lenormand), que aproveita as oportunidades provindas da própria invisibilidade. Ela tem ouvidos bem atentos, e acesso à intimidade de seus patrões. Como um ladrão, junta evidências para tirar algum lucro, ou simplesmente para se vingar da indiferença - ou até crueldade - com que é tratada. Quem não se lembra da empregada Juliana, do Primo Basílio?


Marília Pêra como Juliana na minissérie global de 1988


Ao descobrir que a patroa Luísa traía o marido como o seu primo Basílio, Juliana vislumbrou a oportunidade de infernizar-lhe a vida. Não que Luísa a tivesse sempre tratado mal e merecesse. Juliana vinga-se por todas as serviçais humilhadas, esgotadas pela limpeza que nunca acaba em troca de nada.

Então o conselho da carta é: mais discrição, por favor! Trabalhe como a Donna di Servizio, na sombra. Você pode colher bons frutos disso. Ou então, cuidado com a sua intimidade! Quem tem acesso a ela? São pessoas de confiança? Você precisa mesmo se expor assim? Porque às vezes é melhor a gente arrumar tempo para limpar a própria sujeira.




Bibliografia inspiradora:

Costa, Fernando Braga da. HOMENS INVISÍVEIS: Relatos de uma Humilhação Social. Rio de Janeiro: Editora Globo, 2004.

Queiróz, Eça de. O PRIMO BASÍLIO. São Paulo: Editora Ática, 1998.






segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

La Nemica - 12 de Espadas


O título é bastante sugestivo, e ela ainda tem um companheiro no baralho: il Nemico, o Inimigo. No entanto, não é apenas a sua contraparte feminina. Sua maneira de lidar com os inimigos é diferente. Ela quer encarar a pessoa que a fez sofrer. Ela quer perguntar por quê. Ela quer vingança. 

A mulher entra sorrateiramente por uma porta aberta, aproveitando-se da oportunidade. Será a casa de alguém? Ela está atenta ao exterior, preocupada com a possibilidade de ser pega. Veja a ansiedade em seu rosto! O que ela vai fazer lá dentro? Vai cobrar explicações? É uma serviçal despedida que vai reclamar seus direitos? Vai roubar um bebê (a Inimiga está em todas as novelas)? Ela se cobre com o manto e usa um chapéu, como se quisesse disfarçar a sua identidade. Mas ela não sorri. Se não tivesse sido prejudicada, ela não estaria ali tentando prejudicar alguém. Ela foi obrigada pelo destino. Ó, céus!

Essa é uma carta de acerto de contas. Como veremos mais à frente, o Nemico simplesmente quer sacanear alguém que nada fez a ele. A Nemica sofre com o que tem que fazer, mas sabe que não pode deixar barato. Em algumas ocasiões, chegamos a entender perfeitamente o seu ponto de vista. 

Quem assistiu Kill Bill, do Tarantino, sabe do que estou falando. Mexeram com a cria de uma leoa? Terão o que merecem. E nos deliciamos com a carnificina daquela gente má, sem coração, que obedece as ordens mais absurdas. Beatrix Kiddo mata por um motivo maior, não? Primeiro para se vingar do antigo amante, depois para recuperar a filha. Estamos falando aqui de emoções, de facada nas costas, de traição. Não se faz isso com alguém, cara!

Lady Vingança, do sul-coreano Park Chan-Woo, tem motivações similares. A protagonista e o namorado fracassam ao sequestrar uma criança. O namorado escapa, já que ela confessa toda a culpa. Depois de anos presa, ela quer acertar as contas com o traidor, é claro. 

 

No tarô, temos a Rainha de Espadas. Geralmente, representa uma mulher magoada, uma viúva, alguém que foi abandonado ou sobreviveu a uma tragédia e hoje carrega consigo a mania de ferir a todos os que se aproximam, na tentativa de aliviar a própria ferida.
                                                                                                                    
Sempre a imagino grávida de uma sangrenta vingança...


Se o consulente está devendo alguma coisa a alguém, é melhor ficar ligado. Essa pessoa está voltando. O problema é que, muitas vezes, o consulente nem sabe que fez mal a alguém. Talvez nem tenha feito. Mas levou a culpa. Nesse caso, a carta pede cuidado dobrado, pois estamos lidando com a Eterna Vítima. 

A Eterna Vítima nunca faz nada de errado. Ela é obrigada a fazer. O mundo conspira contra ela. Tudo é sempre culpa de alguém, não dela. Pois o que ela faz é por amor, por medo, por ignorância... sempre há uma desculpa. Mas quem pensa que ela tem peninha dos outros? Na hora da caça às bruxas, ela aponta qualquer pessoa pra salvar a própria pele. E como chora, como se faz de coitada!

E como estamos falando em vitimização, pode ser que o consulente não seja o alvo da Nemica, mas a própria. Dependendo das cartas que a rodeiam, é melhor que ele tire o cavalinho da chuva, não tente atrapalhar a vida de ninguém e reveja os seus motivos. Terá sido realmente ofendido por alguém? Precisa mesmo fazer o que acha que deve fazer? As consequências podem ser nefastas, pois a Nemicanem sempre tem a frieza do Ladro para se safar de situações complicadas. 


domingo, 12 de janeiro de 2014

L'Amica - 4 de Paus


Uma doce mocinha entra pela porta trazendo flores brancas, o que indica a pureza de suas intenções. Mas toda ela transpira pureza, não? Sua roupa azul-clara, seu chapéu romântico de palha e sua cabeça pendente para o lado, como se estivesse oferecendo um ombro amigo, um ouvido para os seus problemas. Que gracinha! Para ela, as portas estão sempre abertas. Quem desconfiaria de tanta prestimosidade, carinho? 

Em outras sibilas (penso aqui no Zigeunerkarten), há uma carta equivalente chamada Visita. Pelas flores, imaginamos mesmo que a moça esteja visitando alguém. Um amigo não precisa chegar com flores para nos ver, exceto em ocasiões especiais. Quem ela visita? Uma pessoa doente, um parente, um colega de trabalho?

Sob o significado de visita, a carta mostra uma situação transitória, curta: um encontro na rua, uma visita rápida em casa ou local de trabalho, uma conversa que não se estende muito. Se o consulente for a visita, é provável que surja a necessidade de ir até alguém, de fazer uma "média" na sala da chefia etc. 

Voltemos para a Amica. Ela parece um pouco carente de atenção também. Talvez seja gentil para que gostemos dela. Quer ser aceita, pertencer a um grupo. Ela esconderá a sombra da sua personalidade. Talvez fale com aquela vozinha de criança, sorria sempre, traga bolinhos para todos. Uma pessoa que eu chamo de "fofinha". Só que eu, particularmente, não sou muito fã das pessoas fofinhas. Ninguém pode ser agradar o tempo todo, abrir mão de si mesmo, estar sempre à disposição, nunca falar palavrão. Acho que sabemos o quanto isso faz mal, e que isso causa uma pressão dentro de nós que uma hora ou outra pode explodir. E por ser tão prestativa, ela pode pensar que você deve algo em troca (ainda que não tenha pedido nada a ela), como amizade eterna, namoro, pacto de sangue. 

Por outro lado, essa Amica boazinha pode estar bem ciente de seu lado negro. Ela pode estar simplesmente fingindo (se vier acompanhada da carta Falsidade, é batata!). É aquela pessoa que se aproxima para pedir um favorzinho com muita educação, e depois outro, e outro. Tenha cuidado tanto com a Amiga Carente quanto com a Amiga Falsa. Se você não der o que elas querem, podem te prejudicar. 

Às vezes essa Amica se aproxima das pessoas pra saber das últimas novidades. Com a fofoquinha em mãos, ela corre pra outra pessoa para repassar e colher mais um pouco. Leva-e-Traz das boas, hein! Ela é simpática com todos, conversa com Deus e o mundo pra manter suas fontes. E não é pra prejudicar ninguém. É só o prazer geminiano de correr pra lá e pra cá com as últimas do escritório, da igreja, do clube, da escola. Mercúrio, regente de Gêmeos, não era justamente o mensageiro dos deuses?

Ela também é um tremendo arroz de festa. Sendo convidada ou não. É uma pessoa extrovertida. Não necessariamente barulhenta e cheia de amigos, mas atenta a tudo o que acontece em torno de si.

Vamos, no entanto, terminar com o significado mais óbvio: um amigo e ponto. Alguém que está ali do nosso lado, mesmo que nem sempre fisicamente. Se não houver cartas muito negativas em volta, a Amiga é sempre uma coisa boa, um carinho a mais, uma vibração positiva. Uma gracinha! 

sábado, 11 de janeiro de 2014

A Giovanetta e a Amante: uma comparação livre


Na escola, a Giovanetta será a primeira aluna da classe. Terá um rígido código de ética, participará do jornalzinho e fará campanhas contra a depredação da natureza, a guerra do momento, o tráfico de pessoas. E, obviamente, terá uma série de críticas à Amante, a garota mais popular da escola. A Giovanetta, como um arcano de Paus (Fogo), quer mudar o mundo e tem força de vontade mais do que suficiente para isso. Fará uma graduação, um mestrado, doutorado e o escambau para ser a melhor em sua área. Confia plenamente em sua inteligência e garra, como pequena Atenas que é.

A Amante é a líder de torcida, a mais admirada, aquela que todos queriam ser. Às vezes pode parecer um pouco metida e malvada. Precisa ter os garotos a seus pés, adora quando as garotas a imitam (e tem um batalhão de amigas). Como arcano de Copas, ela precisa do afeto das outras pessoas. É possível que se case com o melhor partido, ainda que a Giovanetta torça para que a Amante acabe como mãe solteira aos 16 anos, arrume um namorado viciado em drogas e sirva de exemplo. Se fizer faculdade, terá seu lugar garantido na empresa: ela sabe a quem agradar, a quem elogiar e de quem manter distância. É a pequena Afrodite: vaidosa, intuitiva, com apurada inteligência emocional.

E eu, que sou viciada em séries, encontro as duas em uma das minhas favoritas: Mad Men. O enredo gira em torno de uma agência de publicidade na Madison Square, em plenos anos 60 (mais detalhes aqui). 

Nossa Giovanetta é Peggy Olsen, que começou como secretária, mostrou que nem só de maquiagem vivem as mulheres e galgou o posto de redatora (brilhante, por sinal), cargo cobiçado por qualquer homem da agência.


Já a Amante é, certamente, Joan Holloway, a ruiva fatal. Ninguém fica indiferente ao seu charme, que ela sabe usar como ninguém. Sua aparência, no entanto, esconde uma mulher inteligente e sensível. Sua influência é invisível, mas densa. 

Uma das campanhas publicitárias criadas durante a série é emblemática. Para vender um sutiã, lança-se mão dessa dicotomia Atenas-Afrodite usando a imagem de dois ícones da época: Jackie Kennedy e Marilyn Monroe:



Dessa forma, vemos que os arcanos não se limitam à imagem da carta, mas ganham vida de diversas maneiras. Arcano significa "mistério", e cada pessoa traz dentro de si vários deles. Somos arcanos ambulantes, mas às vezes um daqueles que nos habita se destaca mais, usa a nossa voz e o nosso corpo para se expressar. Qual é o seu arcano mais ressonante?


Inspiração bibliográfica:

L'Amatrice - 12 de Copas



Ainda tenho dificuldades com as traduções para os nomes das cartas. Em alguns lugares, o nome dessa é A Amante, mas creio ser uma palavra muito forte para a nossa cultura. Do inglês, Sweetheart, traduziria para Namoradinha. Mas pra ninguém pensar na Regina Duarte e resvalar para o outro extremo. Mas como as traduções também se mostram julgamentos, vamos ficar com o nome original.

Vemos uma mulher jovem, sensível, apaixonada, sonhadora. Ela se sente viva enquanto mantém uma conexão emocional com alguém. Veste-se bem, com cuidado e desvelo, sem vulgaridade. Sua imagem e seu comportamento são muito importantes, porque ela quer mesmo é encantar pessoas. É aquela menina mais bonita da escola, da faculdade, do trabalho.

Ela está lendo uma carta. Imagino ser a carta de um admirador, e nela há muitos elogios à sua beleza e menções ao desespero do admirador por viver sem ela. A Amante fica envaidecida, é claro. Veja a postura altiva, a cabeça erguida, a atenção um pouco desdenhosa. Mais um admirador para a imensa coleção. Isso não quer dizer, no entanto, que ela os usará a seu prazer. Talvez ela não dê bola para nenhum deles. Mas isso dá a ela a certeza de que exerce poder, e lhe faz muito bem. Se fosse uma carta de Espadas, diria que é uma mocinha calculista que brinca com os sentimentos das pessoas. Mas ela não é fria, ela simplesmente precisa de afeto. É ainda muito jovem para ser suficientemente segura de si e encarar um relacionamento com uma pessoa só. Precisa afirmar-se, ter certeza de que muitos a amam, de que ninguém irá largá-la por nada. Se mantém uma certa distância - o que aumenta o seu encanto - é para que não descubram que ela é só uma garota comum e insegura.

O mundo ainda não se mostrou completamente para ela. Vive sonhando, assim como a Giovanetta. Por isso, é uma carta de fertilidade emocional e criativa. Pode mostrar uma situação inspiradora, que resulte frutífera. Pois essa mulher aqui chega às vias de fato, é corajosa e não fica só na vontade.

Também mostra um relacionamento no começo. O flerte. Borboletas no estômago. A conquista saborosa do coração de alguém. Tem gente que nunca sai dessa fase: quando se vislumbra uma relação mais próxima, parte pra outra conquista. Mantém uma distância segura para manter a sua aura reluzente e charmosa. Podemos nos estender nesse aspecto em outro post.

Não nos esqueçamos dos "queridinhos": da mamãe, do chefe, da professora. São tão bonitinhos, exemplares, perfeitinhos... tem hora que faz bem pra gente ser o queridinho de alguém. E tem hora que a gente se irrita um bocado com os outros queridinhos (quem tem irmãos certamente passou por isso em algum momento da infância).

Pensemos na continuação da história: será que a Amante vai responder a cartinha? Eu acho que não. Pois ela sabe que se cozinhar o pretendente em fogo brando, terá o domínio da situação. Não toma atitudes precipitadas, ainda que tenha vontade. Nesse aspecto, a carta aconselha paciência ao manipular uma situação, a fim de não perder o controle dela.

Se a Giovanetta e a Amante fossem irmãs ou colegas, como se comportariam? A comparação fica para o próximo post.



Donna Maritata - 12 de Ouros

Uma mulher casada, com filhos. Enquanto seu marido está longe, no trabalho, ela cuida de seus bens, de sua família. "Mas que historinha machista", você vai pensar. Vamos dar um desconto à época em que o baralho foi feito e pensar no que essa mulher representa.

Ela parece usar um vestido de festa amassado. Parece-me que chegou de um baile na noite anterior e nem teve tempo de trocar de roupa, pois a filha foi logo demandando seus cuidados. E ela não se importa se o seu vestido é rico, se a menina vai babar nele. O vestido é o de menos. Faz parte da menos importante de suas obrigações. Agora, a sua vida é a sua família. Ela está cansada, mas sorri. A rosa em seu peito, desabrochada, revela que ela tem muito amor para reverberar. A casa é suntuosa: as colunas são bem trabalhadas, as almofadas são confortáveis, sua filha também está bem vestida. Ela não tem preocupação alguma com sua sobrevivência. Seu papel é manter, proteger o que possui, amar.

Em sua mão esquerda vemos um pedaço de papel. O que estará escrito ali? Será um bilhete do marido, com instruções para uma precaução especial com a casa? Ou uma mensagem apaixonada, de quem reconhece o carinho com que ela cuida de todos? Não sabemos se o que a faz sorrir é o bilhete ou a filhinha, que aponta para algo que está fora de nossa visão (será o gato da carta Falsidade?).

A menina usa somente um sapato. O outro está em cima do aparador. Não se coloca sapato em cima de mesa, mas quem disse que a mãe liga pra isso? Ela não quer encher a filha de regras, proibições. Deixa-a brincar, com liberdade para explorar o mundo.

Ela dá as costas para a janela que mostra o mar e um navio ao longe. O mundo lá fora, na verdade, não a interessa. O que faz seus olhos brilharem é o que está dentro dessa casa, são os seus entes queridos. Nem mesmo o luxo que a rodeia é importante. Seu corpo relaxado num vestido tão bonito, inapropriado para os cuidados da casa, mostra que ela fica à vontade em meio ao conforto material, mas não muda sua postura diante disso.

A carta significa proteção, desvelo. É alguém em quem podemos confiar plenamente. E melhor: essa pessoa tomará conta do consulente com carinho de mãe. Isso se não for o consulente quem estiver cuidando de alguém dessa forma. É o amor incondicional de Deus.

Se o significante for a criança, o caso refere-se a uma pessoa vulnerável, que precisa de outras pessoas para as necessidades mais básicas, tanto materiais quanto emocionais. Ou até mesmo uma pessoa que recebe mimos como se fosse uma criança, por quem se faz tudo, até mesmo o que ela poderia fazer sozinha.

A carta também representa os laços de sangue. A família em primeiro lugar, e tudo o que abrimos mão em nome do bem das pessoas que nos são mais caras.

Se estiver numa posição negativa, podemos pensar na vulnerabilidade resultante da falta de cuidados. Ou na falta de interesse, de apego emocional. Pense numa mãe que não liga pros filhos, pra casa. Pode apontar para um problema mais sério, como depressão, uma vez que pessoas deprimidas tendem a negligenciar os cuidados mais básicos consigo mesmas e com o seu ambiente. Nesse caso, vale procurar ajuda profissional.

Como o nome da carta não é Mãe, mas Esposa, devemos nos atentar para o fato de que a proteção dela abrange toda a família, e não só os seus rebentos. Em excesso, é superprotetora, sufocante, castradora, controladora.

A interpretação dependerá mesmo da situação apresentada pelo consulente, da intuição de quem lê as cartas e das cartas que a rodeiam. E as versões não terminam por aqui. Cada pessoa tem uma experiência pessoal com a família, com a mãe, com o pai (que não está na carta... o que pode indicar uma mãe solteira que acumulou funções, ou um pai que está sempre fora, trabalhando, viajando). A carta pode soar extremamente negativa para alguns. Para outros, representa a própria Providência Divina. A discussão não acaba. Por isso, a cada novo insight, voltaremos à Donna Maritata.



Giovanetta - 12 de Paus



Ou Giovine Fanciulla, no baralho Vera Sibilla. Continuemos com as mulheres. E as mais jovens, agora. Como veremos, as mulheres não se tornam mais complexas com a idade. Elas nascem complexas, e as complexidades mudam apenas de natureza com o tempo.                                                    
A Giovanetta, Jovenzinha, Moça... como a chamaremos? Deve ter menos de 20 anos. Ela se veste com decoro, de acordo com o que lhe foi ensinado por seus abastados pais e tutores. Sai pouco de casa, exceto para ir para o colégio interno de moças ou à missa. Ainda não foi apresentada à sociedade, não frequenta os bailes. Ela passeia pelo jardim de casa enquanto lê um livro. Um lindo romance, talvez. E sonha com o seu príncipe encantado. Olha para o futuro, um futuro brilhante. As perspectivas são as melhores: um casamento, filhos gorduchos, a paz mundial, talvez uma carreira fabulosa. Pois ela é uma boa moça, tem disciplina, tentará fazer tudo certo. E quem faz o que é certo é recompensado, correto?

Sabemos (?) que a vida não é assim tão cor-de-rosa. Mas a Jovem, não. Não vamos culpá-la: todos nós passamos por essa fase. É essa inocência, essa confiança no futuro que nos faz enfrentar o mundo. Sem ela, nem sairíamos da casa dos nossos pais.

O jardim parece uma fotografia chapada atrás dela. Não há perspectiva, não há profundidade. E assim ela vê o mundo: sem sua profundidade, suas nuanças, os insetos escondidos nas rosas mais bonitas. Tudo é tão claro, tão óbvio! Por quê as pessoas fazem tanta confusão, se o que é certo é tão simples? Pois é... a Jovem tem uma receita pra tudo: as coisas se resolvem com vontade, com amor e com disciplina. Vá dizer a ela que nem tudo é tão simples assim... ela não acreditará em você, meu velho! Para ela, ninguém é confiável depois dos 30 anos.

“Não sou jovem o suficiente para saber tudo” (Oscar Wilde)

A Jovem Mulher mostra uma pessoa inocente, imatura, sonhadora. Sua postura rígida exala timidez, mas também pode revelar uma cabecinha dura, que desconfia da corrupção e descrença dos mais velhos. Eu leio um bocado, então não venha me dizer que não sei nada sobre a vida! É a universitária que entra pro grêmio estudantil, que vai às ruas para protestar a despeito do desespero dos pais.

Se a carta representar uma situação, é aquela em que há imaturidade excessiva. É preciso ter cuidado: que carta aparece rondando nossa menina? O Amante, com seus galanteios mais do que manjados, mas que são novos e fatais para ela?

Pelo lado positivo, nos aconselha a acreditar, nos inspira a velha confiança que tínhamos na juventude. Esquecemo-nos que essa confiança juvenil na mudança é que salva o mundo, de tempos em tempos.


sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Vecchia Signora - 2 de Espadas

Não vou chamá-la de velha senhora porque poderia soar grosseiro. No entanto, a idade traz consigo as virtudes desse arcano: experiência, sabedoria, aquela paciência de quem sabe que cada coisa tem o seu tempo e que não adianta brigar com isso. Ela é a avó conselheira, a rocha da família. Talvez seja menos tradicionalista do que se espera de uma mulher de idade. Mas ela sabe que certas coisas são bobagens, não sobrevivem ao tempo e a uma reflexão mais apurada. 

Ela não deve nada a ninguém. Não precisa se enfeitar para ser valorizada. Não precisa trabalhar para ser útil. Não precisa ter filhos para ser fértil. Sentada em sua poltrona, ela tem a noção verdadeira do que acumulou ao longo dos anos, e está pronta para compartilhar amorosamente. Muitos não a ouvirão. Mas ela não vai se ofender com isso, pois sabe que é uma reação natural dos jovens que sabem tudo.

As deusas anciãs - Hécate, Morrigan, Baba Yaga - são as mais temidas, mas também as mais poderosas. Sua fonte inesgotável de sabedoria é feita de águas negras e muito profundas. A velhice assusta: a aparência de algumas delas causa verdadeiro pavor. Mas quem tiver discernimento suficiente para olhar além da aparência encontrará uma grande avó, nem sempre tão doce, mas com muito a ensinar.

Não vamos nos enganar com a sua aparência pacata. A avózinha fica no cantinho da sala enquanto todo o resto da família faz algazarra pela casa. Faz-me lembrar a minha queria bisavó que, enquanto a família enorme discutia na mesa de jantar, ria baixinho de toda a situação, na última cadeira. Um riso de amor, paciência e uma pitada daquela sabedoria que só os anos trazem e que esclarecem a verdadeira dimensão dos dramas humanos, jamais de deboche. Então ela ia até o seu quarto, sacava um pote de docinhos do fundo do guarda-roupa e distribuía. A família, então, aceitava o docinho e se acalmava. Assim essa bisa taurina dividia o seu amor por todos. Tudo o que fazia discretamente tinha o poder de atingir a família inteira, e tudo o que fazia tinha carinho imenso.

Mas observemos que a nossa Vecchia Signora tem um livro nas mãos. Vermelho, e não negro como o da Giovanetta (que eu chamo, em português, de Jovenzinha). E veremos, mais à frente, que o Sacerdote também tem um livro vermelho nas mãos. A imagem do livro nos remete à Papisa do tarô (sim, eu gosto de chamá-la de Papisa), um arcano que fala do silêncio e da meditação para ouvir a sabedoria interior. 

  

O que as cartas da Vecchia Signora e do Sacerdote têm em comum? Ambas falam de aconselhamento: representam pessoas que nos darão bons conselhos. O livro vermelho representa a experiência de ambos, o que os habilita a dizer aquilo que deve ser ouvido. Então, não seja teimoso: ouça essas pessoas. A carta pode representar também aquela voz interior, aquela velhinha sábia que vive dentro de nós. Ouça, ouça, ouça!

Mas como nada tem um lado só, que aspecto negativo teria a carta? Ela mostra uma situação que se arrasta há muito tempo, mesmo que esteja desgastada. É preciso morrer para renascer, mas resistimos à morte do que nos é caro, ainda que não seja mais ideal para nós. Ilustra, também, alguém que se sente ou age como velho, no pior sentido: não saí de casa, não tem ânimo, tem hábitos ruins difíceis de ser extirpados, sente dores pelo corpo, reclama, está sempre ranzinza. 

Se a Giovanetta bloqueia essa carta, essa pessoa não aceita a própria idade, "paga de mocinha", esquece a sabedoria que acumulou com os anos e toma atitudes inconsequentes. A posição contrária mostra uma pessoa jovem com idade mental de uns 80 anos, típico capricorniano, um Benjamin Button da vida.

Aos poucos, farei comparações com outras cartas apenas para reforçar as características de cada uma. Só depois disso começaremos a juntar as peças e montar histórias.