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quarta-feira, 9 de abril de 2014

Consolante Sorpresa - 6 de Paus

Muitas cartas analisadas aqui foram escritas em dias em que a energia delas foi predominante. Não que tenha escolhido a ordem de postagem pelos acontecimentos da minha vida. Não sei dizer o que vem primeiro: a energia da carta ou a energia do dia. E a carta de hoje vem a mim depois de um fim de semana cheio de imprevistos. 

Na imagem, vemos um pescador que acabou de jogar uma rede num rio e trouxe, no lugar de peixes, um
saco de dinheiro. Concluímos que a pescaria foi bastante proveitosa. E os apaixonados pelo Lenormand lembrarão que, nesse sistema, os peixes representam também o dinheiro e ganhos materiais. O pescador vai ao rio ou ao mar apenas com sua vara de pescar ou sua rede. Em troca de algumas horas pacientes, espera recolher os frutos. Pode voltar para casa de mãos abanando ou cheio de peixes. Depende também da sorte, pois os resultados não são garantidos. 

A carta mostra uma premiação inesperada. Não o resultado natural de um trabalho, mas algo que pode ser mesmo desproporcional ao investimento. Sugere-nos uma situação agradável, boa. No entanto, uma surpresa pode ser boa ou má. Não se engane com o saco de dinheiro.


Carta equivalente no Zigeunerkarten: apesar da aparente alegria de se encontrar dinheiro numa época difícil (veja pelas roupas que o homem veste), será que esse dinheiro de origem desconhecida não traz consigo também desgraças desconhecidas? Afinal, "dinheiro na mão é vendaval..."

A Fortuna combina com ela em sua abundância repentina, mas também a Disgrazia que desaba quando menos se espera. Assim, liga-se à Roda da Fortuna do Tarô e empresta um pouco de sua energia. Quando representa uma tendência, é sempre o imprevisto, o stress, o desassossego. É a carta das pessoas nervosas, cujas mentes nunca param de funcionar e que parecem atrair todo tipo de situação maluca. Como carta do dia, prepare-se. Tudo pode acontecer. E vai acontecer. Ao mesmo tempo.

 


Ela traz consigo emoções fortes. Não é possível ficar indiferente a ela. Quando combinada com outras cartas, ela se destaca, toma força, atrai o olhar. Não é uma carta que acompanha as outras: as outras é que a acompanhar. Sozinha, ela só causa apreensão.  

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Prigione - 9 de Espadas

Vemos um homem aprisionado pelos pés num espaço que supomos ser uma cela. Suas roupas são nobres, sugerindo que ele acabou de ser posto ali e que não pertence àquele lugar. Chora desesperado, pois nunca pensou que um dia cairia nessa situação. Além disso, ainda não se acostumou à ideia de ficar preso, não acalmou-se o suficiente para pensar sobre o que aconteceu e como poderá sair dali. Esse desespero o cega e, se não mudar logo o seu estado de espírito, acabará insano. 

Não sabemos se ele é culpado ou não, mas ele se destroi em remorso por ter acabado ali. Para ele, a vida terminou. Não há saída. Nem olha pela janela, não analisa o ambiente. Afoga seu rosto entre as mãos, perdido em seus próprios sentimentos confusos. Não lhe importa se o dia brilha lá fora, se há um jarro de água fresca. O que importa é o seu espírito quebrado, magoado. 

Prigione tem semelhanças com o 5 de Copas de Waite-Smith, tanto na imagem como na sensação de desespero cego, frustração, lamentação. Nem tudo está perdido. O personagem é que está tão mergulhado em sua dor que é incapaz de enxergar a realidade senão de forma distorcida.

É claro que o arcano pode indicar uma prisão de verdade, dependendo da situação do Consulente. Mas a carta destaca a prisão psicológica, os limites que existem somente em nossa cabeça, a falta de esperança e de confiança sem base na realidade, a culpa.

A culpa é como um mecanismo de choque que é ativado em certas circunstâncias pré-estabelecidas por nós, pela nossa educação ou pela nossa sociedade. Esse "choque" nos paralisa e nos impede de seguir em frente. E, se seguirmos em frente, ela causa um pequeno dano que vai se acumular a tantos outros. Ao longo dos anos, estamos petrificados ou corroídos, até mesmo fisicamente. A culpa causa doenças sérias e pode levar à morte. E a culpa está somente em nossa cabeça, como um chip implantado que podemos retirar, mas temos medo de fazê-lo.

A prisão mais poderosa está dentro de nós, e seus dispositivos de segurança, seus muros grossos e seus vigias são sustentados por nós. 

Além disso, esses grilhões podem gerar uma energia estagnante e negativa que impede que qualquer coisa dê certo. Os fracassos aumentam nosso desespero, reforçam os grilhões e nos mantém num círculo vicioso. 

Exercício dos Prisioneiros, de Van Gogh


Quando Prigione aparecer no seu jogo, veja as cartas ao lado para saber a origem das crises do Consulente, suas maiores censuras ou censuradores. Certamente é um ponto do jogo que representa uma ferida aberta e profunda, com a qual é preciso lidar de forma cautelosa. Todos temos feridas, mas quando o arcano se apresenta, é sinal de que está infeccionando outras áreas da vida, e deve ser tratada com urgência. 

"Estar preso a correntes é derrota e punição. O animal acorrentado está em oposição à natureza e instinto." (Martin, Kakhtleen. O LIVRO DOS SÍMBOLOS: Reflexões sobre imagens arquetípicas. Colonia: Editora Taschen, 2012)

O Acusado, de Odilon Redon


A Prisão interior exerce um forte poder coercitivo sobre nós, não somente em relação às nossas grandes feridas. São hábitos enraizados, vícios, visões limitantes. O "mas sempre foi feito assim, por que faríamos diferente?", "todo mundo faz, então você tem que fazer também", "isso é loucura, ninguém nunca pensou assim". É a ignorância agressiva e teimosa que nos coloca numa situação precária e abjeta, e nos tira pouco a pouco a nossa própria humanidade. 

domingo, 19 de janeiro de 2014

Aprender as cartas

Como disse no primeiro post do blog, eu não sou cartomante profissional. E tenho pouco tempo de contato com as cartas - primeiro o tarô, depois o Lenormand, e finalmente as Sibilas. E nos últimos 5 anos meu aprendizado nem sempre tem evoluído. Quem estuda muito sabe que não basta grudar na cadeira, ler e escrever para aprender algo. Cada um tem um método que funciona melhor. Alguns métodos, embora sejam comuns, podem apenas nos render muito trabalho e pouco resultado. É como quebrar pedra o dia inteiro sem ter o objetivo de construir nada.

Meu primeiro livro consistente sobre o tema foi Jung e o Tarô, da Sallie Nichols. Eu nem sabia direito a ordem dos arcanos maiores. Acho que acertei na escolha, mas depois não fui tão criteriosa. Trabalhando no centro de São Paulo, tinha à disposição os melhores sebos. Viciada em livros em quantidade, como boa taurina com lua em Capricórnio, queria aprender tudo e queria todos os livros. Afinal, um detalhe que mudaria a minha vida poderia estar numa página de um livro obscuro esquecido no fundo da prateleira. E eu não poderia correr esse risco.

Em vez de olhar as cartas, compilava os significados. Comecei as primeiras tentativas de tiragens, e corria para os livros. Às vezes o que estava escrito em um deles não fazia sentido, mas tinha uma palavra no outro livro que se encaixava. E assim, consumi vários livros sobre Tarô sem aprender muito sobre ele.

Depois comecei a colecionar decks. Desenhista no passado, imagens são minha paixão. O problema é que deixei na adolescência o hábito de perscrutar longamente uma imagem a ponto de imaginar a sua história, as suas motivações. Restou-me, no entanto, o impulso por elas. Alguns decks eu comprei nas livrarias, depois descobri as lojas online e numa viagem a Portugal e acesso direto a baralhos diferentes, gastei os tubos. Aproveitei e comprei alguns decks que não são o nosso tradicional tarô de 78 cartas, como o Minchiate, o Tarô de Eteilla, o Mantegna, o Lenormand.


O XVII Arcano do tarô, feito por mim para o Concurso Desenhe o Seu Arcano, promovido pela USGames Brasil, no Facebook


Enchi uma caixa com decks, abarrotei prateleiras com livros, mas ainda não havia tido tempo para olhar as cartas, namorá-las. O tarô me deixa insegura até hoje, não sem motivo.

Quando me mudei para Brasília, não trouxe imediatamente a minha bagagem. Trouxe apenas um tarô de Marselha - meu favorito - e um Lenormand. No entanto, tinha necessidade de fazer algumas perguntas às cartas, e não tinha comigo sequer o segundo livro da Trilogia do Tarô, do Nei Naiff. Sem ajuda externa, tive que contar com a minha intuição, até então negligenciada em favor do intelecto.

Nessa época vi numa loja online a Sibilla della Zingara, me apaixonei pelas poucas imagens e encomendei. E, para meu desespero, não havia um único significado no encarte que acompanha o baralho. Nenhum! Procurei na internet, e minha busca foi infrutífera. Apenas alguns blogs brasileiros falavam delas de relance, mas não eram suficientes para a minha curiosidade. O pequeno deck me olhava e pedia: Decifra-me! Então eu o deixei de lado por um ano.

No inicio deste ano eu o recuperei. E, desta vez, achei algo na internet sobre ele. Nada comparado à bibliografia do tarô: apenas significados curtos. Foi um ponto de partida. Então peguei a primeira carta e fui escrever sobre ela: as palavras foram fluindo e se avolumando, e notei que eu e a carta - sem nenhum livro entre nós - podíamos conversar longamente. Não que ninguém tivesse me dito que eu devia me familiarizar com as imagens. Mas depois de 5 anos querendo aprender sobre as cartas eu tinha me dado conta da simplicidade desse conselho.

Esse blog serve para acompanhar o desenvolvimento desse aprendizado. O que posto vai muito além do que tenho no meu caderno: novas conexões surgem e o texto mal revisado que apresento aqui é cru, genuíno e apaixonado. Alerto, no entanto, para fato dos significados jamais se limitarem a um post. Os significados crescem, concentram-se num detalhe outrora negligenciado, expandem-se, mudam de rota, ressigficam-se. 

sábado, 18 de janeiro de 2014

Il Ladro - 10 de Ouros


"A ocasião faz o ladrão" é um dito popular bastante válido para descrevermos a carta de hoje. O Ladrão, acima de tudo, é um oportunista. Ele não se arriscará à toa: ele sobrevive do que rouba, e sua fonte não pode secar. Então, não pensemos nele como alguém que quer fazer o mal a outras pessoas, como o Inimigo: ele o fará apenas para escapar de uma situação limite. Sua intenção é roubar sorrateiramente e sair de fininho, sem que ninguém perceba. Ele também tem um parentesco com a Raposa do Lenormand quanto à sua invisibilidade e ao seu oportunismo. E com os Ratos, porque pode nos desfalcar aos poucos, sem que percebamos.



E não é porque ele não pretende, a princípio, nos causar um mal físico, que não devemos ter cuidado. O roubo de coisas de valor e de energia pode fazer estrago.  No entanto, em certas ocasiões, ele pode levar pra longe algo que deve ser tirado: uma doença, uma mania, um amor não correspondido.

Na imagem da carta, parece-nos que ele não forçou a entrada: viu uma janela aberta, uma sala vazia e se aproximou. No canto da carta vemos um cofre, que aparecerá com destaque na carta Dinheiro.


E quem iria deixar uma sala cheia de dinheiro com a janela aberta, assim? No Brasil, estamos acostumados a nos proteger com alarmes, seguros, blindagens. Mas o Ladro não rouba apenas dinheiro. Muitas vezes nos colocamos em situações vulneráveis sem perceber: quando nos colocamos à disposição de alguém que nos arranca toda a energia (vampiros psíquicos), quando continuamos um relacionamento em que somente a outra parte tem privilégios e não dos dá nada em troca, quando trabalhamos tanto que o salário não compensa ou nos tira tempo precioso para nós e para a nossa família. Quando o Ladro aparece em uma tiragem, alguém ou algo está lhe arrancando algo que deveria pertencer somente a você! Não deixe! Reclame de volta, proteja-se psiquicamente (há livros e sites sobre isso), mande o usurpador para a Cochinchina. 

O arcano também mostra uma situação ou pessoa furtiva. Alguém que está agindo pelas costas. Um fofoqueiro que se aproxima para colher informações, um colega do escritório que repassa dados para outra empresa, o adolescente que tira umas notinhas da carteira do avô para ir ao cinema com os amigos, a mãe divorciada que esconde telefones dos filhos para que eles não conversem com o pai. Essa pessoa pode não estar te prejudicando diretamente, mas tem coisa por trás dessa moita! E também pode mostrar, simplesmente, alguém que está te evitando.


O Sete de Espadas do tarô (aqui, o Motherpeace e o Waite-Smith) mostram uma situação parecida


Vamos relembrar: o Ladro não foi convidado para entrar, não pretende ser visto, quer possuir algo que não lhe pertence, aproveita-se da vulnerabilidade alheia, não se arrisca à toa.

O conselho é: seja discreto, não dê bandeira. 

Ainda assim, temos alguns "ladrões do bem", como Robin Hood e Prometeu. Esses roubam de quem tem muito ou o monopólio de algo para distribuir àqueles que não têm nada. 

"Faz parte dos mitos de transgressão e bênção em que um herói, deus, animal ou mortal inspirado de uma cultura, se move entre as dimensões humana e divina, subverte a autoridade e redistribui a riqueza acumulada." (O Livro dos Símbolos, p. 480)

Esses Ladrões Sagrados trazem a evolução, mudam uma situação estagnada que precisa ir pra frente, frustram o acúmulo indevido de bens, de conhecimento, de poder (e sabemos que acúmulo é energia estagnada, que faz muito mal). Às vezes o consulente é esse herói às avessas, mas outras vezes o consulente é que precisa largar um pouco o osso e ser forçado a compartilhar.