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quinta-feira, 26 de março de 2015

O Grande Gatsby e as máscaras sibilinas

O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, foi publicado em 1925 e logo tornou-se um clássico. Foi também lançado como filme em 1974 (com Robert Redford e Mia Farrow) e em 2013 (com Leonardo DiCaprio e Carey Mulligan).



O romance é ambientado nos frenéticos anos 1920, marcados pela especulação desenfreada e aparecimento de grandes fortunas e excessos. Conta a história de um misterioso homem, Gatsby, que vive numa mansão em Long Island, nos arredores de Nova Iorque.  Gatsby oferece festas de arromba famosas por seu luxo e animação, abertas a quem quer que apareça por lá. 

O Grande  Gatsby (2013), Baz Luhrmann


E a história contada pela Sibilla, porque estamos aqui pra isso, afinal.

Creio que, na primeira noite em que fui à casa de Gatsby, eu era um dos poucos hóspedes que tinham de fato sido convidados. Em geral, as pessoas não recebiam um convite, elas simplesmente decidiam ir até lá. Entravam em automóveis que as conduziam a Long Island e de algum modo terminavam a viagem em frente à porta de Gatsby. Assim que chegavam lá, eram apresentadas por alguém que conhecia Gatsby e, depois disso, todos agiam de acordo com as regras de comportamento comumente usadas em uma visita a um parque de diversões. Algumas vezes, aquela gente chegava e partia sem ao menos encontrar com Gatsby: vinham para a festa com uma simplicidade de coração que era seu próprio bilhete de entrada. (FITZGERALD, SCOTT F.. O Grande Gatsby. Porto Alegre: L&PM, 2011)

Ninguém sabe quem é o misterioso milionário. Afinal, ele nunca aparece em suas festas, ou ao menos não se faz conhecer. Curiosamente, não se identifica com a sua própria casa, por onde circulam desconhecidos à vontade. Tampouco tal abertura escancara qualquer detalhe sobre a vida de Gatsby e a origem de sua fortuna. Os boatos correm: seria primo do Kaiser Wilhelm II, teria sido espião durante a Grande Guerra, teria estudado em Oxford. E aos poucos, entre Gatsby e sua casa começam a surgir semelhanças: ambos usam máscaras faustosas, ornamentos. Expõem uma versão falsa de si mesmos para encobrir as feridas, as infiltrações, as fraquezas. 

A máscara mais evidente da Sibilla Italiana pertence à Nemica. No entanto, não é a única presente no baralho. Nem a mais apropriada ao nosso personagem, que faz uso de disfarces mais sutis. As diversas máscaras também podem ser usadas ao mesmo tempo, cada uma adequada a guardar ou disfarçar um segredo, distorcer uma imagem específica para torná-la apropriada ao remetente da mensagem.

A certa altura, Gatsby conta ao narrador da história um pouco sobre si mesmo. 

Robert Redford na versão cinematográfica de 1974


– Por Deus, vou contar-lhe a verdade – afirmou ele, enquanto erguia sua mão direita como que a evocar o testemunho divino. – Sou filho de uma família rica do Centro-Oeste; infelizmente, já morreram todos. Fui criado na América, mas estudei em Oxford, porque todos os meus ancestrais frequentaram aquela universidade. É tradição de família.

Casa é a máscara que afasta quem quer que se aproxime sob uma fachada de força e imponência. Aquela que parece tão grandiosa e sólida que ninguém desafia. A tradição inquestionável de profundas raízes. Parece estar ali há tanto tempo que acabamos por aceitá-la como se apresenta. Quem vai colocar abaixo um brasão de família, a tradição que remonta a tempos imemoriais, a força das instituições, ainda que sejam obsoletas? Derrubar essa máscara requer o questionamento do que foi imposto a nós, o ímpeto revolucionário, o tremer dos alicerces da própria sociedade. É uma máscara que assusta e impõe respeito.



– Depois disso, vivi como um jovem rajá em todas as capitais da Europa: Paris, Veneza, Roma, colecionando joias, especialmente rubis, caçando grandes animais, pintando um pouco, para mim mesmo, e, sobretudo, tentando esquecer algo muito triste que me aconteceu muito tempo atrás.

Superbia é a máscara que se destina à proteção de uma identidade que não quer se revelar por medo do ridículo, medo de não ser aceito, medo de expor a própria fragilidade. É a máscara dos fracos que precisam parecer fortes. No caso desse romance, a alta sociedade superficial e esbanjadora dos anos 1920 que teve as pernas quebradas com a queda da bolsa de Nova Iorque em 1929. Fascina num primeiro instante, mas é frágil por originar-se no medo do que se é, e não na consciência da própria beleza e encantamento. 



– Foi então que chegou a guerra, meu velho camarada. Foi um grande alívio e eu fiz de tudo para morrer, mas parecia que a minha vida era encantada. Aceitei uma nomeação como primeiro-tenente assim que tudo começou. Na Floresta de Argonne, levei o que sobrou de meu batalhão de metralhadores tão à frente da linha de batalha que resultou em um intervalo de oitocentos metros de cada lado de nossa unidade, no qual a infantaria não conseguia avançar. Ficamos presos lá dois dias e duas noites, cento e trinta homens com dezesseis metralhadoras Lewis; e, quando a infantaria finalmente chegou, encontraram as insígnias de três divisões alemãs entre as pilhas de mortos. Fui promovido a major e recebi condecorações de todos os governos aliados, inclusive de Montenegro, o pequeno Montenegro localizado no mar Adriático!

Falsità é a máscara que distrai, com belas histórias e muito charme, para que não se alcance o cerne da questão, a verdade. Aproxima-se e deixa-se até mesmo afagar, nos dizendo: "Não, não olhe para lá. Olhe para mim. Veja como sou bonito". Essa máscara tem muitas histórias para contar e muitos detalhes para embelezar o que conta. Mostra-se capaz de realizar muito mais do que realmente pode. Promete mundos e fundos. Enquanto se é ludibriado, essa máscara te distrai do que você está procurando, até que esqueça seu objetivo inicial.


O leitor descobre, mais à frente, que tantas máscaras são destinadas a uma mulher, o grande amor do nosso herói. E cada uma delas cairá à medida que ele toma coragem e se aproxima dessa mulher: seu nome, sua fortuna, seu passado. Afinal, não resistem a uma interação mais íntima com aquele que se quer ludibriar. Ainda que se colem ao rosto com o tempo, a imobilidade artificial das máscaras as denuncia cedo ou tarde.


Sobre máscaras e papéis sociais
A Sibilla traz vários papéis sociais em suas lâminas: o viúvo, o negociante, a esposa, o médico etc. Esses papéis podem servir como máscaras, mas não as são num primeiro momento. É possível confundir a si mesmo com o seu papel social: essa confusão pode ser resultado de um autoconhecimento frágil ou uma máscara usada para encobrir propositadamente a própria personalidade. 







domingo, 20 de abril de 2014

Falsità - 4 de Ouros

Uma das cartas mais polêmicas do Sibilla, a Falsità mostra um gato que nos fita, digamos, com a maior cara de pau. Parece que acabou de atacar o armário cheio de guloseimas, e tenta nos desarmar com o seu charme e aquele ar de quem não fez nada de errado. 

Quem tem gatos entende esse comportamento. Mas também não o associa a falsidade. Eu tenho três gatos, e creio que os gatos são animais muito fiéis, nem fingem que gostam de nós só porque os alimentamos. Conquistar um gato é tarefa árdua, pois eles só demonstrarão carinho e confiança quando efetivamente sentirem que gostam de você. 

Os gatos não são amados por todos. Há quem os odeie é os acuse de serem traiçoeiros, falsos, indiferentes. São associados ao ocultismo, às bruxas más, à noite, às mulheres. Sim, às mulheres que nunca foram completamente domadas, apesar de subjugadas. Que sempre mantiveram alguma autonomia, ainda que bem escondida em seus pensamentos, que sempre tiveram consciência do seu poder natural, ainda que lhe dissessem o contrário. Gatos e mulheres são seres noturnos, que palmilham pelo inconsciente com a sinuosidade da água que abre caminhos pelos espaços menos prováveis. E tanto os gatos quanto as mulheres são popularmente associados à falsidade.

E como acho que essa seja uma qualidade superficialmente associada aos gatos, gostaria de ver outra imagem na carta. Porém, deixo a tarefa para um futuro baralho. Vamos nós concentrar no significado da carta.

A Falsità me faz retornar à carta da Nemica, que usa uma máscara. Qual a diferença entre elas? A Nemica quer te dar o troço, quer te fazer mal com todas as suas entranhas. A Nemica sente tanto! É quer acabar com a dor dela transferindo-a a você. E a Falsità?

A Falsità é indiferente. Ela não quer te prejudicar, mas o fará se for preciso. Ela só se defende com as máscaras que possui. É aquela pessoa simpática com todos os que se aproximam e que depois fala mal de todo mundo pelas costas. A máscara já grudou no seu rosto, mas sem objetivos claros, nem alvos certos. É a mentira compulsiva. Não quer fazer mal a ninguém, mas o faz sem querer.

Pode ser apenas uma proteção. Alguém que mantém a voz afetada para conversar, as pessoas "fofinhas" que usam aquela voz de criança e nos trata como velhos amigos, mas com quem não temos nenhuma afinidade. Às vezes ela só quer se aproximar porque tem algum interesse: seu desejo nem é prejudicar, mas roubar um pouco da sua atenção, do seu carinho ou do seu consentimento.

Acho que todos sabemos bem o que são pessoas falsas. Lembre-se, no entanto, que nem todas as pessoas falsas são suas inimigas.

Quando mostra uma situação, a carta alerta para a possibilidade das coisas não serem exatamente o que parecem. Quer comprar um carro maravilhoso? A cor é perfeita, as condições são favoráveis. Mas o motor pode ter um defeito que se esconde sob o brilho como a cara fofa do gatinho esconde uma travessura. É melhor pensar suas vezes. Nem tudo o que reluz é ouro.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Cartas do dia: Prigione - Falsità - Bambino


Costumo tirar três cartas pela manhã para saber qual será a energia dominante do meu dia. Quem lida com a cartomancia conhece bem a prática. As Sibillas são muito literais e cotidianas, e por isso podem ser surpreendentemente precisas. É um baralho muito prático, que monta verdadeiros cenários e nos lembra histórias em quadrinhos. O fato de ter tantas cartas (cinquenta e duas) não confunde, mas enriquece ainda mais a leitura, explora nuanças e humores da situação. 

Quem tira essas cartas diárias sabe como é apavorante tirar cartas pesadas logo pela manhã. Pensamos logo no pior e muitas vezes não temos ideia do desastre que irá se abater sobre nós. Por isso, não sinto que a tiragem seja a melhor para previsões: primeiro porque a previsão é sobre nós, e nossas emoções nem sempre nos permitem fazer uma análise acurada do que o futuro nos promete. Segundo porque são tantos elementos para um dia só que nossa cabeça fica confusa e é difícil saber exatamente a que a tiragem se refere. Muitas vezes, as cartas fazem menção de um episódio isolado ou de algo que acontece com alguém próximo. Não sei como é com cartomantes mais experientes... eu só entendo as cartas do dia no fim do dia ou mesmo nos dias seguintes.




A tiragem acima foi a sequência que me saiu no início da semana. A Prisão é um pouco sufocante e me deixou apreensiva em relação à possibilidade de uma armadilha plantada por uma pessoa falsa (logo falarei da carta Falsidade e a polêmica da sua associação ao gato). Mas o que aconteceu nem foi tão apavorante assim.

Explico. Trabalho num setor muito sobrecarregado de trabalho. Comigo trabalha um colega com quem divido as tarefas. Temos outra colega que chegou recentemente, mas que ajuda esporadicamente a "apagar os incêndios". É um trabalho que exige tempo para aprender, por isso ela não pode nos ajudar muito enquanto não entende todos os detalhes do funcionamento do setor. Porém, na próxima semana meu colega vai tirar férias longas. Conversei então com a terceira colega e lhe expliquei que tínhamos que dividir mais tarefas quando o primeiro colega saísse de férias, o que exigiria maior empenho nas tarefas mais difíceis. 

No dia seguinte (o dia das cartas acima), ela veio falar comigo logo cedo. Explicou que irá para o exterior no segundo semestre, a trabalho, e que precisava fazer alguns cursos oferecidos aqui antes disso. Os cursos ministrados aqui têm dois anos de validade e ela não precisaria refazê-los. Mas ela disse que quer "se atualizar" e que se inscreveria. O problema: os cursos correrão justamente no período em que estaremos sozinhas, o que a impossibilitaria de me ajudar com as tarefas. 

Agora vamos às cartas:

Prigione: situação sufocante. No meu caso, o excesso de trabalho e a possibilidade de fazê-lo sozinha, o que duplicaria a minha carga já pesada.

Falsità + Bambino: minha colega, para escapar dessa situação complicada, inventa um curso para fazer durante esse período. O curso serve apenas como pretexto (Falsidade) para justificar uma atitude totalmente imatura (fugir do trabalho).

Depois ela nos ofereceu uma bandeja de docinhos para que tudo terminasse bem!