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sexta-feira, 14 de março de 2014

Sospiri - 6 de Espadas

Uma mulher à beira do mar olha para a imensidão azul com certo pesar. Ninguém morreu: uma pessoa amada foi embora e está distante. Ela suspira por ele, com o peito apertado de tanta saudade. Uma rosa está caída ao chão, vulnerável a qualquer pisada descuidada. Apesar da saudade, ela acalenta uma esperança: o retorno de seu amado. Não sabemos a quanto tempo ela está ali: ele pode ter acabado de partir. Alguns anos podem ter se passado, e ela vai lá todos os dias esperar por ele. Como uma viúva que espera que o seu marido ressucite. Suas roupas são negras como as de uma viúva, mas - ao contrário dela - a moça dessa carta tem desejo e esperança.

Em outros baralhos ciganos, como Zigeunerkarten, o nome da carta equivalente é Desejo. Um desejo que queima e não pode ser realizado, ao menos imediatamente. Um desejo que pode se tornar Frustração.
Desejo (Zigeunerkarten)

Se ela espera, assim como o arcano Belvedere, qual a diferença entre as cartas? Como já exploramos anteriormente, Sospiri diz respeito ao passado, e Belvedere olha para o futuro. E quais as consequências dessa mudança de perspectiva com formas parecidas? Belvedere volta-se para o que está por nascer, para as possibilidades reais, uma vez que seu pensamento pode criar o que quiser, sendo positivo e forte. Sospiri debruça-se sobre o que já morreu. Só ela não se deu conta ainda. Até mesmo sua roupa é de luto (será que ela percebeu que está enlutada?). Suas energias estão concentradas em algo que não pode mais dar frutos, um corpo em decomposição que precisa ser enterrado para não espalhar doenças. O Vedovo sabe que o tempo acabou, e guarda a memória do passado com reverência e limites: o passado está devidamente enterrado diante dele. O ritual de passagem foi feito.

Sospiri não sabe o que fazer. Nesse momento, estamos aguardando notícias do avião da Malaysian Airlines que desapareceu com centenas de passageiros. Os familiares não sabem o que esperar. Não sabem se devem considerar seus queridos mortos ou não. Ainda que os anos corram, sem um corpo para chorar e sem notícias do paradeiro dos desaparecidos, a esperança de revê-los nunca se esvai, e a ferida nunca é tratada. Quem tem parentes e amigos desaparecidos sabe que a dor não passa, que é muito confuso declarar a morte do que não se conhece.

Mas essa carta não se refere apenas a pessoas desaparecidas. Muitas vezes lamentamos em cima de algo que se foi, mas não aceitamos a sua partida. Um amor antigo, fortuna perdida, uma era de ouro que ficou no passado. São pessoas que vivem como se aquilo não tivesse chegado ao fim, e dessa forma vivem num limbo temporal que pode acabar em loucura e confusão mental (note que é uma carta de Espadas). E quando se dão conta de que aquilo passou, não sabem o que fazer: como uma pessoa que dormiu por 10 anos e acordou agora, com as referências de mundo que tinha antes de dormir. E ela pode acabar optando pelo seu mundo de fantasias doentias do passado, pois torna-se incapaz de viver o Agora.

O que você devia ter enterrado e não enterrou? Somos ensinados a iniciar coisas, mas não a abandoná-las no tempo certo. No entanto, saber encerrar ciclos é essencial para a nossa saúde mental, espiritual e até física.


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Il Vedovo - 3 de Espadas



O homem tem tanto medo da morte quanto da solidão. O Vedovo fala desses dois medos. A carta, no entanto, não fala em desespero. Temos um arcano para isso. O arcano traz consigo certa inércia, a atmosfera que nos cerca depois que a poeira de uma perda já abaixou. E quem já perdeu um ente querido talvez entenda que esse período - que pode se estender por longos anos - é bem mais doloroso do que o desespero que se segue imediatamente à morte.

O homem leva uma coroa de flores para o túmulo de sua esposa. Não sabemos se ele a enterrou há uma semana, há alguns meses ou há muitos anos. Ele continua homenageando a memória de sua querida companheira, e não demonstra intenção alguma de arrefecer sua saudade.

Dizem que o luto tem cinco fases, e cada uma delas tem uma duração indefinida: a negação (não acreditamos na perda), a raiva (nos revoltamos com a perda), a negociação (geralmente com “Deus”, para que superemos a perda ou para que ela se anule), a depressão (a consciência de que a perda é para sempre) e finalmente a aceitação.

A carta pode significa o luto pela morte literal de alguém. Dependendo da proximidade com a pessoa falecida, a dor não passará. Apenas diminuirá, e nos acostumaremos a ela. 

O viúvo é também uma pessoa que vive sozinha. A carta representa pessoas solitárias por opção ou não. Alguém que não está com ninguém, que vive longe da família ou divorciados. Alerta para a possibilidade do consulente estar isolado demais, evitando que outras pessoas entrem em sua vida ou até mesmo recusando um pouco de luz do mundo. A convivência com outras pessoas nos ensina a ser tolerantes e amáveis, além de proporcionar o aprendizado ao qual nunca chegaríamos sozinhos. 

Porém, a morte não simboliza apenas a morte física: qualquer mudança, fim de relacionamento, rito de passagem implica uma morte e o luto que se segue. Ainda que a mudança seja positiva, levamos algum tempo para nos acostumar à nova realidade. Mas se a mudança não foi desejada, haverá resistência.

Enquanto nos lamentamos pelo passado, transferimos nossa energia para um buraco negro. Depois de um tempo de perda de energia, a depressão é inevitável. E as doenças também. Por isso é preciso prestar atenção quando essa carta sai em uma tiragem: estarei preso a uma situação ou pessoa do passado? Preciso continuar preso? Como isso me afeta?

Obviamente, o corpo de uma pessoa ou animal morto deve ser enterrado, cremado. Se ele ficar exposto e próximo de nós, causará primeiro mal cheiro, depois espalhará doenças. Da mesma forma, se uma situação deve ser encerrada, devemos enterrá-la. Os antigos romanos tinham como um curioso castigo: a necroforia. Um cadáver era atado a um criminoso, e este tinha que carregá-lo enquanto o corpo se decompunha. Em pouco tempo, o condenado morria em consequência das doenças e do horror. Segurar um emprego, um relacionamento, um sentimento que já deu o que tinha que dar pode acabar nos adoecendo de verdade. Muitas doenças sérias, como o câncer, nascem do nosso lamento, do nosso desgosto, de uma coisa ruim que ficamos acalentando.

No entanto, podemos vislumbrar um leve sorriso no rosto do Vedovo, pois – imagino – recorda-se dos bons momentos que viveu com sua amada. Positivamente, a carta aconselha o respeito e o carinho pelas pessoas falecidas e pelo nosso passado. Servem-nos de referência e modelo. Somos hoje o resultado de tudo o que vivemos, e devemos honrar essa experiência.