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segunda-feira, 24 de março de 2014

Disperato per Gelosia - 8 de Espadas

Em italiano, o nome da carta é bem sugestivo: Disperato per Gelosia (Desesperado por Ciúme ou, numa tradução mais florida, "louco de ciúme"). Há flores amassadas em cima da mesa, abaixo do retrato da pessoa amada. No Sibilla Della Zingara, as flores representam o amor, o coração, e vemos aqui um coração despedaçado. No entanto, acho que limita um pouco a expansão dos significados da carta. É uma carta do naipe de Espadas, o que nos leva a perceber que a confusão que leva ao desespero é mental, mais do que emocional. O ciúme, ainda que acreditemos ser um mal do coração, surge de uma imaginação fértil, e não necessariamente do amor que se sente pela outra pessoa. Não é preciso amar para ter ciúme, mas ter medo de perder alguém ou algo que a pessoa acredita possuir. As cartas vizinhas mostrarão o motivo do desespero.

Assim como Disgrazia, é uma carta que dá muito medo (se uma acompanhar a outra, então...) por representar uma situação extrema. Mas aqui, ao contrário daquela, vemos que o personagem ainda pode ter controle do que vai acontecer. O dedo dele está no gatilho e só ele pode dispará-lo.

Se Disgrazia vier antes, o desespero se dá por um acontecimento desestruturante na vida do Consulente.

Se Disgrazia vier depois, as atitudes extremas do Consulente é que podem fazer com que o desastre tome lugar. 


Não se pode dizer que ele está mergulhado nas circunstâncias e não tem saída. O quadro na parede não é muito claro, mas eu enxergo nele (e aqui entra a minha imaginação) um caminho em meio ao bosque, como a carta Caminhos do Lenormand, que representa justamente os caminhos abertos, as saídas alternativas:


Logo, Desespero mostra mais uma perturbação mental que pode passar num instante do que uma situação realmente desesperadora, sem saída. Por isso, essa é mais uma carta com a qual é preciso ter cuidado numa consulta, a fim de que o Consulente não comece a ficar alterado só ao ver o arcano. É hora de respirar fundo, rever a situação e tirar cartas de aconselhamento. Assim, quando o acontecimento mostrado no jogo tiver lugar, o Consulente já tem ideia do que fazer.






segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Casa - 2 de Copas



Uma casa grande com todas as janelas fechadas. Vemos o seu exterior bem acabado, cuidadosamente pintado e limpo. Mas o interior é para poucos.

A Casa representa o lar, a família, a intimidade que protegemos do olhar curioso. E também é o nosso corpo e nossa mente. Não permite que ladrões e estranhos entrem, demarca limites. É a nossa aura. Por mais que seja bonita por fora, ninguém sabe como está o interior. Por fora, bela viola... Cuidado com as aparências.

Dentro dela há segurança, conforto, o amor dos outros membros da família. Dentro dela é possível ser você mesmo, passar o dia de pijama e sem maquiagem. A Casa protege a si mesma, ainda que coisas escusas aconteçam em seu interior. É o centro vital de permanência e liberdade, de descanso depois do esforço, de ser totalmente o próprio (1).

Uma família tende a proteger seus membros e, algumas vezes, esconde os segredos de um deles. Todos temos segredos de família. Algumas famílias colecionam até mesmo pequenos crimes. Na casa e no lar encontra-se a harmonia doméstica e a violência doméstica (1). Família não é aquela de sangue, apenas: é um grupo religioso, uma corporação, os colegas de trabalho. O local de trabalho é a casa para muita gente, pois é nele que passam a maior parte do seu tempo. Nem sempre nos associamos por afinidade e escolha, e somos obrigados a defender os interesses de outros que têm os mesmos interesses que nós. Ninguém corta o próprio braço se ele não comprometer seriamente a saúde do resto do corpo.

A carta inspira solidez, tradição. Uma casa pode durar vários séculos, pode ser o baluarte de um período arquitetônico, de uma era. Indica um período de estabilidade, de segurança.

A casa é uma armadura: um sobrenome, um cargo, uma máscara. Em paralelo com o Lenormand, ela pode passar de refúgio a mecanismo de defesa, da Casa (04) à Torre (19). 

 Novosibirsk Lenormand (fonte)

Quando está em casa negativa, mostra a insegurança, a falta de um teto, a falta de afeto e aceitação emocional. É quando o consulente fica sem chão. É a falta de raízes. O arcano apela ao primeiro chacra, aquele que nos sustenta e nos segura no mundo físico. Mal posicionado, pede cuidado com a maneira com que nos relacionamos com o nosso próprio corpo, com a matéria, com a nossa identidade grupal. Como anda a sua casa? Você negligencia o seu espaço pessoal? A limpeza, a decoração (tem a sua cara ou a cara dos outros membros da família)? É só um lugar onde você dorme ou é o seu refúgio? 

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(1) Martin, Kakhtleen. O LIVRO DOS SÍMBOLOS: Reflexões sobre imagens arquetípicas. Colonia: Editora Taschen, 2012. p. 556.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Il Ladro - 10 de Ouros


"A ocasião faz o ladrão" é um dito popular bastante válido para descrevermos a carta de hoje. O Ladrão, acima de tudo, é um oportunista. Ele não se arriscará à toa: ele sobrevive do que rouba, e sua fonte não pode secar. Então, não pensemos nele como alguém que quer fazer o mal a outras pessoas, como o Inimigo: ele o fará apenas para escapar de uma situação limite. Sua intenção é roubar sorrateiramente e sair de fininho, sem que ninguém perceba. Ele também tem um parentesco com a Raposa do Lenormand quanto à sua invisibilidade e ao seu oportunismo. E com os Ratos, porque pode nos desfalcar aos poucos, sem que percebamos.



E não é porque ele não pretende, a princípio, nos causar um mal físico, que não devemos ter cuidado. O roubo de coisas de valor e de energia pode fazer estrago.  No entanto, em certas ocasiões, ele pode levar pra longe algo que deve ser tirado: uma doença, uma mania, um amor não correspondido.

Na imagem da carta, parece-nos que ele não forçou a entrada: viu uma janela aberta, uma sala vazia e se aproximou. No canto da carta vemos um cofre, que aparecerá com destaque na carta Dinheiro.


E quem iria deixar uma sala cheia de dinheiro com a janela aberta, assim? No Brasil, estamos acostumados a nos proteger com alarmes, seguros, blindagens. Mas o Ladro não rouba apenas dinheiro. Muitas vezes nos colocamos em situações vulneráveis sem perceber: quando nos colocamos à disposição de alguém que nos arranca toda a energia (vampiros psíquicos), quando continuamos um relacionamento em que somente a outra parte tem privilégios e não dos dá nada em troca, quando trabalhamos tanto que o salário não compensa ou nos tira tempo precioso para nós e para a nossa família. Quando o Ladro aparece em uma tiragem, alguém ou algo está lhe arrancando algo que deveria pertencer somente a você! Não deixe! Reclame de volta, proteja-se psiquicamente (há livros e sites sobre isso), mande o usurpador para a Cochinchina. 

O arcano também mostra uma situação ou pessoa furtiva. Alguém que está agindo pelas costas. Um fofoqueiro que se aproxima para colher informações, um colega do escritório que repassa dados para outra empresa, o adolescente que tira umas notinhas da carteira do avô para ir ao cinema com os amigos, a mãe divorciada que esconde telefones dos filhos para que eles não conversem com o pai. Essa pessoa pode não estar te prejudicando diretamente, mas tem coisa por trás dessa moita! E também pode mostrar, simplesmente, alguém que está te evitando.


O Sete de Espadas do tarô (aqui, o Motherpeace e o Waite-Smith) mostram uma situação parecida


Vamos relembrar: o Ladro não foi convidado para entrar, não pretende ser visto, quer possuir algo que não lhe pertence, aproveita-se da vulnerabilidade alheia, não se arrisca à toa.

O conselho é: seja discreto, não dê bandeira. 

Ainda assim, temos alguns "ladrões do bem", como Robin Hood e Prometeu. Esses roubam de quem tem muito ou o monopólio de algo para distribuir àqueles que não têm nada. 

"Faz parte dos mitos de transgressão e bênção em que um herói, deus, animal ou mortal inspirado de uma cultura, se move entre as dimensões humana e divina, subverte a autoridade e redistribui a riqueza acumulada." (O Livro dos Símbolos, p. 480)

Esses Ladrões Sagrados trazem a evolução, mudam uma situação estagnada que precisa ir pra frente, frustram o acúmulo indevido de bens, de conhecimento, de poder (e sabemos que acúmulo é energia estagnada, que faz muito mal). Às vezes o consulente é esse herói às avessas, mas outras vezes o consulente é que precisa largar um pouco o osso e ser forçado a compartilhar.