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sábado, 8 de fevereiro de 2014

Pensiero - 6 de Ouros

Um filósofo com roupas gregas perde-se em seus pensamentos, dando as costas ao lindo dia emoldurado pela janela aberta. O crânio e a ampulheta sugerem que ele está mergulhado em questões profundas sobre a vida e a morte, sobre o tempo. O pé da mesa tem um leão alado entalhado. O leão é o fogo, símbolo do espírito. A fumaça do incenso sobre em abundância, mostrando que os pensamentos, da mesma forma, alcançam alturas inimagináveis. 

Seu rosto mostra preocupação. Ele não sabe o que vai escrever nas folhas que tem em volta de si, não sabe se está no caminho certo e se vale a pena registrar a sua linha de raciocínio (mas, pelo tamanho do pergaminho, sabemos que é um raciocínio e tanto). Apesar de dar as costas para o exterior, a janela aberta é sinal de que ele aceita qualquer contribuição que o universo possa lhe dar. Ele está aberto à intuição, representada pelo mar que vislumbramos além. Apesar de parecer um rígido filósofo ou matemático, ele está muito atento aos insights que a sua intuição lhe proporciona. Por isso, ao contrário do Letterato, ele perde menos tempo estudando o pensamento consolidado até então e vai mais à frente, buscando soluções para velhos enigmas e descobrindo tantos outros para a posteridade.

"Mas quanto mais pensava sobre o assunto, tanto mais claro lhe parecia que, no fundo, saber que não se sabe é também uma forma de conhecimento." (Gaarder, Jostein. O MUNDO DE SOFIA)

Ele está sozinho, mas não podemos dizer que é um solitário. Seus pensamentos ocupam a sua mente, ocupam todo o seu mundo. Talvez ele nem perceba as outras pessoas. Imerso em sua elocubrações, pode descuidar-se da limpeza do seu ambiente, dos afazeres cotidianos. Lembra-nos o estereótipo do super-dotado intelectual totalmente desconectado do "mundo real". Apesar disso, muitos deles são responsáveis pela ampliação do nosso conhecimento do mundo e do universo. Como se estivessem, na verdade, mais conectados do que nós. Stephen Hawking é a figura atual mais lembrada. Penso, às vezes, que sua mente é tão imensamente fértil e infinita que ele prescinde do próprio corpo para ser livre. 

Como discutido aqui, a diferença entre ele e o Letterato é exatamente a fertilidade de ideias versus a reprodução delas. O Letterato não vive sem os seus livros, que são suas referências para tudo. O Pensiero tem uma biblioteca dentro de si, que ele mesmo elabora e reinventa diariamente.    

Mas como nem tudo são flores, numa posição negativa esse pode ser um Pensador "do mal". Pessoas inteligentes que usam seu raciocínio para cometer fraudes, delitos, ou simplesmente prejudicar os outros. E também aquelas pessoas que têm o pensamento fixo em algo ou em alguém, como obsessores vivos. Seus pensamentos são tão constantes que se fortificam e direcionam energias (negativas) aos objetos de seus devaneios. 

Vemos aqui um ataque psíquico: um inimigo que emana poderosas energias negativas

Na posição contrária, o Inimigo elaborou um plano cuidadoso de ataque frontal, muitas vezes físico


É preciso sempre respeitar o Pensador. Aquilo que produz pode resultar em um enorme ganho para a humanidade, mas faz estragos tremendos. A força do pensamento é uma faca de dois gumes. 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Sacerdote - 13 de Espadas



Assim como o Papa do tarô, o Sacerdote inspira, num primeiro momento, certa desconfiança. Muitos pensam nas amarras da Igreja, seus preconceitos, sua história nebulosa. Mas antes de condenar preconceitos da Igreja, observemos nossos próprios preconceitos para extrair o melhor desse arcano.

Vemos um padre lendo atentamente um livrinho vermelho. Ele está cercado por muros, provavelmente de um mosteiro. Esses muros isolam-no da vida exterior. Porém, ao contrário da carta da Prisão, seu encerramento é voluntário. O Sacerdote até mesmo dá as costas para o jardim interno, recusando a vida que abunda a seu redor. Afinal, sua atenção não se volta para a vida mundana, mas para a Vida Eterna. Ele não está preso ao mosteiro: está livre do Mundo.

Provavelmente procurou um lugar para ficar sozinho em comunhão com Deus. A sua leitura não me parece atenta, como a de alguém que lê um livro interessantíssimo. Ele até mesmo ergue um pouco a cabeça, como se fizesse pose de leitor. O conteúdo do livro não deve ser novo: talvez salmos para meditação. Se o Sacerdote abrir a boca, imagino-o falando lenta e pausadamente, como aqueles que querem parecer sábios. A Vecchia Signora também tem um livro vermelho consigo. E, assim como ela, o Sacerdote está em paz consigo mesmo.

Um Sacerdote é também um mediador entre o Céu e a Terra. Dedica-se à vida espiritual, no lugar daqueles que não podem fazer o mesmo. Estuda e medita para trazer mensagens em seus sermões e conselhos. Assim, o arcano sugere o conceito de Conselheiro: uma pessoa sábia, que dedica-se exclusivamente a refinar a sua sabedoria e a reforçar o canal com a divindade, a fim de compreender melhor os padrões do Universo e ajudar os outros. Veja-o como um Guia que ajudará o consulente numa questão importante.

Em algumas situações, a carta pode sugerir um retiro do mundo, espiritual ou mental. Férias. Só assim se pode refletir e evoluir interiormente.

E o que o Sacerdote ganha com isso? Na verdade, ele obedece a um chamado. Seu trabalho é uma missão à qual dedica seu espírito. Da mesma forma, a carta representa uma pessoa que carrega uma missão, ou pensa carregar uma: em relação ao seu trabalho, à família, à religião etc. Dedica-se com afinco, com paixão. Pode até mesmo exagerar. É aquela pessoa que trabalha pelo “bem maior”. Só que, ainda que seja muito bonito, essa suposta missão pode ser uma ilusão de uma pessoa só, não compartilhada pelo seu próximo. Ao entregar-se a um trabalho de corpo e alma, essa pessoa poderá abandonar a vida em si: sua família, amigos e até a si mesmo. Vale a pena?

Algumas pessoas encerram-se num convento ou mosteiro como penitência por uma vida de pecados. Por isso, é bom atentar-se para a possibilidade do consulente estar negando indevidamente a vida, proibindo-se de sentir prazer ou de tomar uma decisão que deseja fortemente, mas acredita ser pecaminosa: assumir a sexualidade, divorciar-se, mudar de cidade e afastar-se da família, abandonar um emprego seguro para investir num sonho etc.

Em seu pior aspecto, o Sacerdote aproveita-se de seu poder sobre as pessoas para mandar nelas. Certo de que é o representante de Deus na Terra, pode constranger muita gente a assumir posturas que não desejam. Esse é o Sabe-Tudo, que reforça a sua pose de Iluminado para manipular os outros. Ele não aceita recusa, não dialoga com ninguém, não ouve ninguém. Somente o seu ponto de vista é o certo e a sua palavra é a última. Teimoso como uma mula, não enxerga nada ao seu redor. A intolerância daqueles que acreditavam ser receptores das mensagens divinas provocou imensos estragos no mundo. E ainda provoca.

Outro problema do Sacerdote é que ele, por ser tão "iluminado", não aceita a própria Sombra. Todos nós somos luz e escuridão, e se não vemos a escuridão em nós, ela é projetada nos outros. Vemos maldade e degradação nos outros, e acreditamos que somente nós somos puros. As críticas amargas que lançamos podem nos afastar cada vez mais das pessoas e, quando menos esperamos, estamos sozinhos. Mais uma vez, o aspecto negativo da carta implora pela tolerância conosco e com os outros.

Um filme que explora o que discutimos aqui é Dúvida (Doubt), de Patrick Shanley. A diretora de uma escola religiosa lança suspeitas sobre o padre, que tem uma relação próxima com um aluno negro. Mesmo que o padre lhe explique a relação inocente que tem com o menino, a freira não acredita e luta para afastá-lo da escola. Para ela, todos têm algo de podre a esconder, são dominados pelo lado obscuro, e sempre há segundas intenções por trás de tudo.

O filme revela tanto os aspectos bons do Sacerdote, por meio do padre Flynn, quanto os aspectos sombrios, na figura da irmã Beauvier. Recomendadíssimo!

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Mercante - 13 de Ouros



 
Um árabe contempla o mar, rodeado por sua mercadoria. Mas não está envolvido pela paisagem... ele pensa em seus negócios. Os lucros e as dívidas, a qualidade dos fornecedores, uma possível expansão. Ele não é refinado, nem quer se tornar um gentleman. Seu negócio é dinheiro. Não para adquirir objetos e status, mas pelo prazer de vê-lo multiplicar-se. Muitas vezes, é a sua família que desfrutará dos benefícios dessa riqueza. Seu desejo é que seus filhos estudem nos melhores colégios e tenham o que ele não teve, para substituí-lo no futuro e fazer com que os negócios cresçam ainda mais. Ele é, na verdade, uma pessoa simples e grosseira, como indicam seus pés descalços, mas bastante perspicaz.

O Mercante tem anos de experiência no trato com pessoas. Sabe o que desejam, e como lhes oferecer isso. É capaz de mentir a respeito de um produto, ludibriar o cliente a fim de criar nele uma necessidade de consumo que talvez não existisse antes (assim como a Publicidade). Fará tudo para manter o seu negócio, que é o seu grande orgulho, a sua vida. Fica mais tempo em seu comércio do que em casa.

No Ocidente, associamos a imagem e as características do Mercante ao árabe (erroneamente chamado de “turco” por aqui) e ao judeu. Essa imagem está carregada de preconceito, como se as qualidade necessárias ao exercício de um trabalho fossem inerentes a esses povos. Lembremo-nos de que na Europa não havia a possibilidade de um judeu tornar-se um Nobre proprietário de terras, e o comércio era o caminho mais promissor para a sobrevivência. Quanto aos árabes, negociaram especiarias e produtos finos com os italianos por muito tempo, conquistando o imaginário do continente como eternos comerciantes. Antes da Revolução Francesa, os burgueses eram cidadãos de segunda classe. Nas Sibilas temos várias dessas “castas” representadas: o Gran Signore (Nobreza), o Sacerdote (Clero), o Militare (Guerreiro), o Mercante (Comerciante), a Donna di Servizio (Servos).


Basicamente, representa um homem de negócios: o comerciante, o empresário, o publicitário. Alguém que vende um produto ou a sua própria imagem. Negativamente, é uma pessoa que tenta enganar os outros para tirar algum lucro para si. Ainda que os outros fiquem satisfeitos com o que conseguiram, ele vende seu produto com base na mentira, se necessário. Por isso, todo cuidado é pouco. Existe alguém ou alguma situação que está ludibriando o consulente? Ele pode acabar comprando gato por lebre.

Ele é interesseiro, mas um interesseiro prático, não emocional. Sem os refinamentos da sociabilidade, não se aproximará de ninguém à toa. Ninguém propõe uma sociedade em um negócio para ajudar seu sócio, mas para lucrar. Seu objetivo não é exatamente manipular ninguém, mas extrair o melhor para si mesmo. Se você espera um relacionamento afetivo de alguém, essa carta lhe diz que não será bem assim.  

A carta também alerta para a necessidade de ser mais esperto. Uma oportunidade pode estar na cara do consulente e ele não está vendo. Ou, se estiver atento, deve refletir bem sobre o que fazer e como tirar vantagem da situação. 

Por último, gostaria de reforçar que ficar rico não é pecado, tirar vantagem de uma situação sem prejudicar ninguém não é pecado, ter o desejo de crescer na carreira não é pecado. Costumamos julgar o arcano negativamente devido a uma série de crenças que herdamos. Por isso, é bom avaliar de acordo com a situação se as características do Mercante são desejáveis ou excessivas. 

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Il Vedovo - 3 de Espadas



O homem tem tanto medo da morte quanto da solidão. O Vedovo fala desses dois medos. A carta, no entanto, não fala em desespero. Temos um arcano para isso. O arcano traz consigo certa inércia, a atmosfera que nos cerca depois que a poeira de uma perda já abaixou. E quem já perdeu um ente querido talvez entenda que esse período - que pode se estender por longos anos - é bem mais doloroso do que o desespero que se segue imediatamente à morte.

O homem leva uma coroa de flores para o túmulo de sua esposa. Não sabemos se ele a enterrou há uma semana, há alguns meses ou há muitos anos. Ele continua homenageando a memória de sua querida companheira, e não demonstra intenção alguma de arrefecer sua saudade.

Dizem que o luto tem cinco fases, e cada uma delas tem uma duração indefinida: a negação (não acreditamos na perda), a raiva (nos revoltamos com a perda), a negociação (geralmente com “Deus”, para que superemos a perda ou para que ela se anule), a depressão (a consciência de que a perda é para sempre) e finalmente a aceitação.

A carta pode significa o luto pela morte literal de alguém. Dependendo da proximidade com a pessoa falecida, a dor não passará. Apenas diminuirá, e nos acostumaremos a ela. 

O viúvo é também uma pessoa que vive sozinha. A carta representa pessoas solitárias por opção ou não. Alguém que não está com ninguém, que vive longe da família ou divorciados. Alerta para a possibilidade do consulente estar isolado demais, evitando que outras pessoas entrem em sua vida ou até mesmo recusando um pouco de luz do mundo. A convivência com outras pessoas nos ensina a ser tolerantes e amáveis, além de proporcionar o aprendizado ao qual nunca chegaríamos sozinhos. 

Porém, a morte não simboliza apenas a morte física: qualquer mudança, fim de relacionamento, rito de passagem implica uma morte e o luto que se segue. Ainda que a mudança seja positiva, levamos algum tempo para nos acostumar à nova realidade. Mas se a mudança não foi desejada, haverá resistência.

Enquanto nos lamentamos pelo passado, transferimos nossa energia para um buraco negro. Depois de um tempo de perda de energia, a depressão é inevitável. E as doenças também. Por isso é preciso prestar atenção quando essa carta sai em uma tiragem: estarei preso a uma situação ou pessoa do passado? Preciso continuar preso? Como isso me afeta?

Obviamente, o corpo de uma pessoa ou animal morto deve ser enterrado, cremado. Se ele ficar exposto e próximo de nós, causará primeiro mal cheiro, depois espalhará doenças. Da mesma forma, se uma situação deve ser encerrada, devemos enterrá-la. Os antigos romanos tinham como um curioso castigo: a necroforia. Um cadáver era atado a um criminoso, e este tinha que carregá-lo enquanto o corpo se decompunha. Em pouco tempo, o condenado morria em consequência das doenças e do horror. Segurar um emprego, um relacionamento, um sentimento que já deu o que tinha que dar pode acabar nos adoecendo de verdade. Muitas doenças sérias, como o câncer, nascem do nosso lamento, do nosso desgosto, de uma coisa ruim que ficamos acalentando.

No entanto, podemos vislumbrar um leve sorriso no rosto do Vedovo, pois – imagino – recorda-se dos bons momentos que viveu com sua amada. Positivamente, a carta aconselha o respeito e o carinho pelas pessoas falecidas e pelo nosso passado. Servem-nos de referência e modelo. Somos hoje o resultado de tudo o que vivemos, e devemos honrar essa experiência. 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Gran Signore - 13 de Copas

A imagem do nosso arcano foi abertamente inspirada no quadro Carlos I da Inglaterra, de van Dyck


O Gran Signore é um aristocrata, faz parte da Nobreza: uma "casta" detentora de terras e privilégios. Ele não precisa trabalhar, pois aqueles que vivem e trabalham em suas terras lhe pagam tributos. Sua ocupação, portanto, é refinar-se: aprofundar um hobby, vestir-se com esmero, exibir seus modos em jantares e festas etc. 

Temos alguns predicados para ele: esnobe, dândi. Não temos aristocracia em nosso país, mas somos uma sociedade bastante hierarquizada. Dessa forma, criamos uma aristocracia em diversas ocasiões. Para termos privilégios, tentamos um "você sabe com quem está falando?", as pessoas são tratadas de forma diferente dependendo de sua roupa, seu carro, do bairro onde mora e até mesmo de sua postura (se for arrogante, impõe respeito). Discutimos, hoje, a polêmica dos rolezinhos, a invasão de shoppings de luxo por jovens da periferia. Há lugares supostamente públicos em que certas pessoas não devam entrar? Implicitamente, sim. Quem nunca se sentiu desconfortável com isso tente entrar numa loja da Chanel de bermuda e havaianas. Exceto se pensarem que é um milionário excêntrico (ou tiver a subjetiva "cara de rico", que no Brasil é branco, de cabelos lisos e louros e tem olhos azuis), você descobrirá, em poucos minutos, que não é benvindo ali.

Nossa tendência é enxergar o Gran Signore negativamente. Uma pessoa que nunca precisou trabalhar, que não sabe produzir riqueza e valor e, portanto, não tem utilidade para a sociedade. Sua vida é ostentar. Hoje, quando os holofotes se voltam para as celebridades, essa seria uma ocupação bastante cobiçada. Sob esse aspecto, o Gran Signore representa uma pessoa que exibe seu smartphone, seu carro, vai a todas as festas. A sua imagem é tudo para ele. Pode ser mesmo uma pessoa famosa da televisão. 

Lembremo-nos de que alguns nobres perderam a sua riqueza, e só lhes restou o título. Da mesma forma, temos pessoas que, mesmo sem o "background da riqueza", sustentam seus narizes empinados e pensam que, por vontade do Destino, são realmente superiores aos outros. Dizem, aqui em Brasília, que certas pessoas não sabem mais abrir uma porta depois de um tempo em certos cargos, pois há uma multidão de pessoas que correrá à sua frente para fazer-lhe o favor. Quem trabalha com "autoridades" sabe o quanto é difícil lidar com elas, principalmente se for visto como "plebeu". Essas pessoas pensam que sua posição lhes dá o direito de ser grosseiras, desrespeitosas. Afinal, os outros são inferiores. 

No entanto, essa carta não pode ser somente negativa. O Gran Signore está tão coberto por sua roupa brilhosa e rodeado por puxa-sacos que fica difícil ver quem ele realmente é. E pode ser alguém que valha a pena conhecer. Portanto, a carta pode indicar que o real valor de uma pessoa está escondido.

Certa vez perguntei às cartas a respeito de um profissional cujos serviços queria contratar. Saiu o Gran Signore, rodeado de cartas positivas. Pensei: "É a nata desse tipo de profissional. Vou contratar". Sim, ele é o melhor no que faz: um grande advogado, o rei do hot dog, o melhor chef de cozinha. Trabalhou muito para isso, e merece o devido reconhecimento. 

O Gran Signore não é só um embrulho. Mas muito cuidado ao abri-lo. 




sábado, 18 de janeiro de 2014

Il Ladro - 10 de Ouros


"A ocasião faz o ladrão" é um dito popular bastante válido para descrevermos a carta de hoje. O Ladrão, acima de tudo, é um oportunista. Ele não se arriscará à toa: ele sobrevive do que rouba, e sua fonte não pode secar. Então, não pensemos nele como alguém que quer fazer o mal a outras pessoas, como o Inimigo: ele o fará apenas para escapar de uma situação limite. Sua intenção é roubar sorrateiramente e sair de fininho, sem que ninguém perceba. Ele também tem um parentesco com a Raposa do Lenormand quanto à sua invisibilidade e ao seu oportunismo. E com os Ratos, porque pode nos desfalcar aos poucos, sem que percebamos.



E não é porque ele não pretende, a princípio, nos causar um mal físico, que não devemos ter cuidado. O roubo de coisas de valor e de energia pode fazer estrago.  No entanto, em certas ocasiões, ele pode levar pra longe algo que deve ser tirado: uma doença, uma mania, um amor não correspondido.

Na imagem da carta, parece-nos que ele não forçou a entrada: viu uma janela aberta, uma sala vazia e se aproximou. No canto da carta vemos um cofre, que aparecerá com destaque na carta Dinheiro.


E quem iria deixar uma sala cheia de dinheiro com a janela aberta, assim? No Brasil, estamos acostumados a nos proteger com alarmes, seguros, blindagens. Mas o Ladro não rouba apenas dinheiro. Muitas vezes nos colocamos em situações vulneráveis sem perceber: quando nos colocamos à disposição de alguém que nos arranca toda a energia (vampiros psíquicos), quando continuamos um relacionamento em que somente a outra parte tem privilégios e não dos dá nada em troca, quando trabalhamos tanto que o salário não compensa ou nos tira tempo precioso para nós e para a nossa família. Quando o Ladro aparece em uma tiragem, alguém ou algo está lhe arrancando algo que deveria pertencer somente a você! Não deixe! Reclame de volta, proteja-se psiquicamente (há livros e sites sobre isso), mande o usurpador para a Cochinchina. 

O arcano também mostra uma situação ou pessoa furtiva. Alguém que está agindo pelas costas. Um fofoqueiro que se aproxima para colher informações, um colega do escritório que repassa dados para outra empresa, o adolescente que tira umas notinhas da carteira do avô para ir ao cinema com os amigos, a mãe divorciada que esconde telefones dos filhos para que eles não conversem com o pai. Essa pessoa pode não estar te prejudicando diretamente, mas tem coisa por trás dessa moita! E também pode mostrar, simplesmente, alguém que está te evitando.


O Sete de Espadas do tarô (aqui, o Motherpeace e o Waite-Smith) mostram uma situação parecida


Vamos relembrar: o Ladro não foi convidado para entrar, não pretende ser visto, quer possuir algo que não lhe pertence, aproveita-se da vulnerabilidade alheia, não se arrisca à toa.

O conselho é: seja discreto, não dê bandeira. 

Ainda assim, temos alguns "ladrões do bem", como Robin Hood e Prometeu. Esses roubam de quem tem muito ou o monopólio de algo para distribuir àqueles que não têm nada. 

"Faz parte dos mitos de transgressão e bênção em que um herói, deus, animal ou mortal inspirado de uma cultura, se move entre as dimensões humana e divina, subverte a autoridade e redistribui a riqueza acumulada." (O Livro dos Símbolos, p. 480)

Esses Ladrões Sagrados trazem a evolução, mudam uma situação estagnada que precisa ir pra frente, frustram o acúmulo indevido de bens, de conhecimento, de poder (e sabemos que acúmulo é energia estagnada, que faz muito mal). Às vezes o consulente é esse herói às avessas, mas outras vezes o consulente é que precisa largar um pouco o osso e ser forçado a compartilhar.  

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Il Nemico - 11 de Espadas


 Um mosqueteiro esconde-se sob uma árvore e prepara-se para atacar uma pessoa que vem desprevenida pela rua. Ele quer roubá-la? São conhecidos? Por qual motivo o Nemico quer prejudicar essa pessoa?

Ele não vai atacar por necessidade: suas roupas são caras, é um homem abastado. Não precisa roubar. Além disso, ele sorri: prevê a reação assustada de sua vítima e delicia-se com isso.

Vimos que a Nemica quer acertar contas com alguém que a prejudicou. O Nemico, não. Ninguém lhe fez mal algum. Ele age sorrateiramente para atacar, e não para encarar alguém e pedir explicações emocionadas sobre uma situação mal resolvida do passado. Ele age por inveja, despeito. Alguém é mais bonito, mais inteligente? Ele odeia. Essa pessoa merece morrer.

Espelho, espelho meu... Existe alguém mais incrível do que eu?

Percebemos na imagem da carta que a vítima está distraída. Ela não percebe que corre perigo e está pouco se lixando para o que o Nemico pensa dela. Já o Nemico sabe por quais caminhos ela passa, em quais horários. Ele está de olho há muito tempo. 

O arcano nos alerta para prestarmos mais atenção às pessoas que nos rodeiam: que tipo de sentimentos você desperta nelas? Mesmo que tente ser uma boa pessoa, outros podem te odiar simplesmente pelo que você é e pelo que você tem. 

O Nemico é uma pessoa profundamente invejosa, emoção bastante vulgarizada (se alguém não gosta da gente, dizemos logo que "isso é inveeeeja"), mas pouco explorada em sua profundidade. Uma pessoa invejosa nem sempre quer roubar para si o que o outro tem: ela quer que o outro simplesmente não tenha aquilo, de preferência que o perca de forma dolorosa. Ela não ganha absolutamente nada com aquilo. Ela não tem o que o outro tem. Para ela, isso expõe a sua própria fragilidade. O invejoso é extremamente inseguro e vaidoso. Ele não quer ser uma pessoa forte, evoluída: ele quer que todos sejam mais fracos do que ele. O problema é que ele já é muito fraco, o que torna muita gente o alvo do seu despeito. Em outras palavras, ele quer simplesmente baixar o nível.

A diferença entre o Nemico e o Ladro é que o Ladro quer ter lucro no roubo, e ele só vai se arriscar - e machucar pessoas - se valer muito a pena. O Nemico é imprudente: ele quer prejudicar sem conseguir nada em troca, apenas um alívio ilusório. Acontece que, muitas vezes, ele nem se atenta para as consequências de seus atos. Se houver riscos, ele não os calculará ou minimizará, pois a sua vontade cega de prejudicar é incontrolável e ele precisa saciá-la. Nesse caso, o feitiço pode virar contra o feiticeiro. 

Mas não é porque o Nemico é imprudente e pode se dar mal que o consulente vai ignorá-lo. Vejam: ele carrega um florete na bainha. Antes que a Justiça Divina seja feita e o Nemico se lasque, a Vítima pode sair bastante machucada, ou até morrer.

O Nemico é o Traidor: o companheiro, amigo ou sócio que não tem motivos para agir pelas suas costas, mas age. E uma traição dói, não dói? Ainda que você corte o traidor da sua vida, ele causa estragos que podem ser permanentes.

Ainda assim, a carta pode indicar outro tipo de Nemico: o interior. A nossa sombra, nosso sabotador interno, relegado aos guetos da nossa mente. Esse foi criado por nós, não tem jeito. Ou o aceitamos e o integramos, para que ele se torne nosso aliado, ou seremos eternamente atacados por ele. 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

L'Amante - 11 de Copas


Na imagem, vemos um trovador fazendo uma serenata para alguém que supomos ser sua amada. Não é um homem qualquer: pela riqueza de suas roupas e de sua capa e pela sua habilidade com o alaúde, deve ser um homem nobre e de posses. Os trovadores espalharam-se pelo sul da França e pela Península Ibérica, e são os tataravôs dos nossos repentistas nordestinos.

Mas o nome da carta não é O Trovador, mas O Amante, o que nos leva a outros caminhos. Ele está disposto a conquistar o coração de alguém. Sua arma é o encanto, o romantismo. Ele não é nada tímido e tem segurança em seus talentos. O Amante é vaidoso, aquele que chamaríamos hoje de metrossexual. Sua roupa não tem cores nada discretas, a pluma de seu chapéu é bem cuidada. Não chamará a atenção apenas de sua amada, mas de toda a vizinhança. E ele gosta disso. Sua grande arma de sedução é a voz, por isso canta. É um homem eloquente, sua conversa nos enreda como uma teia de aranha.

Toda essa pompa é também uma armadura. Confortável no papel de galã, ele não suportaria o amor cotidiano, as compras de supermercado, o mau-hálito matinal.

Olha, benzinho, cuidado
Com o seu resfriado
Não pegue sereno
Não tome gelado
O gim é um veneno
Cuidado, benzinho
Não beba demais
Se guarde para mim
A ausência é um sofrimento
E se tiver um momento
Me escreva um carinho
E mande o dinheiro
Pro apartamento
Porque o vencimento
Não é como eu:
Não pode esperar

(Mais um Adeus, Vinícius de Moraes)


Por isso, a cada conquista concluída, ele dá uma escapada e parte para a próxima. Se ninguém consegue se aproximar dele, não perceberá que as roupas exageradas mostram um homem que exagera suas qualidades, que tem metade do tamanho que aparenta ter, que não tem espaço no Olimpo. Um homem que, segundo a visão dele, não é ninguém, não merece crédito. 

É aquela pessoa que ostenta carros, celulares e bling-blings e confunde o seu próprio valor com o de seus objetos. Cuidado com as finanças ao construir uma vida com uma pessoa assim! 

Ele também não está muito preparado para o cotidiano. Quer fazer coisas heróicas, bonitas. Vai deixar a louça pra você, exceto se tiverem visitas em casa e ele quiser dar uma de marido perfeito. Pode ser que pule de um emprego para o outro, pois "ninguém valoriza mas minhas qualidades naquele lugar".

Porém, a carta não mostra apenas um tipo de pessoa. Ela pode indicar, simplesmente, o companheiro do consulente. As cartas em volta, então, indicarão o cerne da questão. 

Por outro lado, vemos que o Amante tem um objetivo: conquistar determinada coisa ou pessoa. E ele colocou sua melhor roupa, treinou uma canção e foi fazer o seu número, sob o risco de ser ridicularizado. Temos que valorizar essa iniciativa. Logo, em determinadas tiragens, ele pode representar uma pessoa determinada em perseguir um objetivo. Representa força, domínio, poder, vontade, convicção. E é certo que conseguirá o que quer.

Alguém poderia chamá-lo de "pavão". Temos uma carta com a figura de um pavão, chamada Superbia. Qual a diferença de atitude entre os dois arcanos?



O Amante, como bom naipe de Copas, é motivado pelos outros. Ele está concentrado em conquistar alguém ou várias pessoas. Ele adapta o seu charme ao seu público. Depois de um tempo, todos o amam.

A Superbia, do naipe de Paus, acha que é tão gostosa que o mundo obviamente girará em torno dela. Ela abafa! Não para pra pensar se agrada os outros ou não. Vão dizer que ela "não se enxerga" (e quando lhe contarem isso, ela vai achar que é inveja, isso, sim!). Em vez de admiração, atrai antipatia. 

O Amante é a voz do amor. É o cantor romântico, sertanejo, brega. É o poeta, o Cavaleiro de Copas. É o Cara.




quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Militare - 10 de Espadas


Vamos agora adentrar no mundo masculino. Também começando pelos mais jovens: o Militare, com sua farda impecável, o peito estufado, a imaginação - ao menos - nos campos de batalha. Percebemos, pelas bochechas rosadas, que ele mal saiu dos cueiros. E pelo olhar esperançoso, de olho no futuro, fica claro que ele nunca lutou de verdade. Não sabe o que o espera, exceto pelos livros que leu, pelos filmes que assistiu (Apocalipse Now não está entre suas referências). 

Atrás dele vemos as muralhas do forte e uma nuvem de areia que se levanta. Parece-nos que ele acabou de chegar no local de batalha, um deserto em algum lugar do mundo (penso na presença dos italianos em Trípoli, Líbia, mas essa informação só situa a inspiração da imagem). Por enquanto, ele está protegido pelos muros. Muito animado pelo fato de, pela primeira vez na vida, vislumbrar a real possibilidade de tornar-se um herói. A guerra será o seu rito de passagem para a vida adulta. E está tão entretido com suas visões do futuro que nem percebe a nuvem de areia que poderá engoli-lo. Aliás, ele pensa que é só uma nuvem de areia. Acostumado com os campos verdejantes e a suave brisa de sua terra natal, ele ainda não sabe o que isto aqui:

Simum, como é chamada uma tempesdade de areia no deserto

E muito menos isto:


E por quais motivos escolheu a vida militar? Ele quer sentir que pertence a algo. Por isso buscou uma instituição rígida, cheia de regras, que lhe servisse de norte. Ele ainda precisa ser doutrinado, orientado. Antes, precisava dos amigos em volta para ser corajoso. Agora, prefere confiar em uma autoridade, a quem obedecerá cegamente. 

A confiança dele assenta-se sobre um uniforme, não sobre seu caráter. O uniforme é sua máscara e sua fortaleza. Sem isso tudo, ele não tem forças para aceitar-se. 

Ele é obediente, mas não porque tem senso de dever. Só quer ser alguém, como a autoridade que está acima dele e que tanto admira. Não sabemos se ele serve por amor à pátria ou por reconhecimento. 

A partir disso, podemos concluir que essa pessoa tem vantagens e desvantagens. Ele tentará fazer o seu melhor para nos defender, mas será que sabe manejar aquela arma? Ele quer fazer tudo certo. É disciplinado, está disposto a superar seus limites. O futuro promete. Mas a carta mostra-o hoje, jovem e inexperiente. 

No jogo, pode representar um militar, obviamente. Mas também alguém que se agarra ao seu cargo, ao seu título (coisa muito comum aqui em Brasília). Sabe aquele moço que passou num super concurso aos 22 anos de idade, vira chefe de gente bem mais safa e nem cabe direito no terno? Alguns terão pena, outros terão raiva, e outros ainda enxergarão nele um jovem promissor, que só precisa de uma ajudinha para se situar. Pode ser o filho do dono da empresa que começa a aprender administração. 

Também representa os aprendizes disciplinados, que confiam na destreza de seus professores e chefes. Às vezes somos muito imaturos para entender certas coisas. Podemos questionar por hábito ou podemos nos calar para ruminarmos melhor as motivações de certos ensinamentos e certas ordens. Hoje em dia, a obediência cega não é valorizada, mas é exigida em certos meios - profissionais, religiosos, esportivos - e pode render bons resultados.

Desobedecer Pai Mei é pedir pra morrer, mané!

Porém, tanta disciplina pode esconder um puxa-saco. Alguém que faz aquele trabalho que fica mais bonito pro chefe, mas não quer nem saber dos bastidores. Ele quer mesmo é aparecer. Não conte com a sua ajuda no trabalho pesado, muitas vezes mais necessário do que o beija-mão cotidiano.

Se aparecer em uma posição negativa da tiragem, pense em alguém que é incapaz de manter a sua palavra, um compromisso qualquer. Ou também num rebelde sem causa, que tem asco a qualquer coisa que evoque ordem.

Concluo com uma citação retirada do Livro dos Símbolos, obrigatório na cabeceira de qualquer um que estude o tarô, o lenormand, as sibilas:

"...mesmo aqueles que nunca foram soldados sonham que são soldados, que necessitam de disciplina militar, coragem e resistência para ultrapassar uma provação ou completar uma tarefa particularmente difícil." (p. 472)

Mentalize o Militare quanto tiver que respirar fundo e enfrentar uma situação difícil. Ele não sabe que a tempestade de areia vai pegá-lo. Mas certamente sairá vivo e fortalecido dela. 



Bibliografia inspiradora:

Martin, Kakhtleen. O LIVRO DOS SÍMBOLOS: Reflexões sobre imagens arquetípicas. Colonia: Editora Taschen, 2012.