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quarta-feira, 29 de abril de 2015

Domestico e sua face produtiva


Temido como um inimigo disfarçado e desprezado como simples serviçal, Domestico não é um personagem nada popular na família sibilina. Seus significados tradicionais evocam a falsa modéstia, a intriga, o perigo disfarçado, a inveja, o rancor. 

Como carta do dia, causa um certo desconforto. Quem agirá de maneira falsa? De quem virá uma possível facada nas costas?

Porém, essa carta tem agido de forma muito mais suave para mim quando sai como carta do dia. Ela geralmente aparece em dias úteis da semana. E eu prevejo um dia com muitas tarefas no meu trabalho, muitas demandas. Coisas simples, mas que me deixam ocupada o dia inteiro. Nenhum incêndio para apagar, nenhuma surpresa: só a rotina intensificada, a necessidade de concentrar-me mais no trabalho e esquecer um pouco de mim.

Porque Domestico, antes de maquinar suas vinganças e conspirações, trabalha o dia inteiro. Está à disposição de seus patrões a qualquer momento. Fala pouco e faz muito. Corre para lá e para cá de maneira quase invisível, tamanha a sua eficiência. Os problemas não chegam a preocupar, pois ele está fazendo seu trabalho de formiguinha, a manutenção cuidadosa e constante do cotidiano, lubrificando o maquinário que ajuda a vida a acontecer. 

É claro que preferimos - e tendemos a -  nos identificar com reis e rainhas. No máximo pajens, que ao menos prometem crescer e aparecer no futuro. Mas precisamos também dos nossos dias de Domestico. Aliás, ele é quem determina o tom diário da vida. Ele é o rei do cotidiano. Sempre discreto. Tão discreto que só o notamos quando nos falta e tudo se transforma em caos.

segunda-feira, 16 de março de 2015

As prisões que criamos ao longo do dia

Tirar Prigione como carta do dia não é uma experiência nada agradável. Mas esse desagrado traz também uma porção de questionamentos. Como, exatamente, ela pode se expressar? Você pode ficar preso numa reunião, no trânsito, preso do lado de fora de casa porque sua chave não funciona. 

Mas também criamos pequenas prisões ao longo do dia às quais estamos tão acostumados que nem nos parecem correntes. Em tempos de tensões políticas em nosso país, frequentemente ficamos presos a convicções, a crenças em soluções prontas (desde que sejam nossas). Também nos enredamos em discussões, ao vivo ou online. A postagem ou resposta malcriada do nosso amigo exige uma resposta? Então ficamos matutando a resposta, o rebate perfeito, a força que colocaremos no punho para que não haja sequer tréplica. As pessoas estão enlouquecendo, "pensando errado"? Passamos o dia nos dizendo "como isso é possível?" repetidamente, revoltados com tamanha falta de visão. Ligamos a TV e nos irritamos ainda mais com a parcialidade das notícias, com o sorrisinho e a indireta debochada do jornalista, com a seleção de notícias que não condiz com a nossa seleção pessoal de acontecimentos importantes no mundo.

Assim, ficamos tão presos à agitação mental que permeia nosso país que nos afundamos lentamente no ódio, no rancor, no inconformismo sem saída. Contribuímos, assim, com a densidade sufocante dos ares. Não achamos mais nosso amor, perdido em meio a tanta lama. Não encontramos o discernimento, o meio termo, tão preocupados estamos com nossos "oponentes" que há pouco tempo eram nossos amigos, nossa família. 

Essa foi a minha carta do dia. E esse post é pra mim. Mas pode ser pra você também.

Amor!

terça-feira, 3 de março de 2015

Disperato e os comportamentos auto-destrutivos

Disperato per Gelosia saiu-me ao menos duas vezes numa mesma semana. E essa carta, como outras tantas cartas nefastas dos diversos oráculos, parece estragar nosso dia no momento em que pululam do baralho, como uma profecia com realização garantida. 

Meus dias de Disperato, não sei se por sugestão ou previsão, nunca são fáceis. No entanto, não são dias em que aparecem problemas que me tiram do sério a ponto de dar aquela vontade de sumir. Noto que nesses dias eu estou com os pensamentos a mil, bagunçados, desencadeados, pouco racionais. Quando penso no sofrimento dos outros, sinto-os como se fossem meus. Por isso afasto-me dos grandes dramas e histórias tristes. Nesses dias, porém,  eu me torturo pensando mais "carinhosamente" no sofrimento alheio. O saldo do fim do dia é uma coluna vertebral despedaçada com tanto peso (geralmente alheio), o sono perturbado, os nervos à flor da pele. Provavelmente chegarei em casa e decidirei que tenho direito a uma bacia enorme de brigadeiro de colher. Mas drama mesmo? Uma grande desgraça? Nada acontece.

Nosso Disperato está prestes a acabar com a própria vida. Seus olhos esbugalhados nos fazem duvidar da sua estabilidade emocional. Não sabemos o que o fez chegar àquele ponto. Talvez não seja nada demais: ele é que não tem discernimento suficiente para calcular as suas reações às frustrações da vida.

 

Essas pinturas de Edvard Munch chamam-se, respectivamente, O Desespero e O Grito. Isso me intrigou no começo, pois a segunda imagem parece-me mais 'desesperada' do que a primeira. Mas o grito é libertador. O grito pode acabar com o desespero, com os fantasmas. O grito devolve, muitas vezes, as neuroses aos seus verdadeiros donos. O desespero é silencioso e devorador. O homem da primeira imagem está só em sua angústia e não a divide com ninguém (até pular da ponte, que se oferece tentadora).

Muitas vezes nos frustramos com qualquer coisa e descontamos, sem raciocinar, na comida, no cigarro, no choro convulsivo e dramático, na melancolia que desiste da vida. Em vez de liberar aquilo que precisamos, supliciamos o nosso corpo: tanto pelos "venenos" de que tanto gostamos e consumimos quanto pelas tristezas que se acumulam e viram uma doença, um câncer futuro. E esse matar-se lenta e irracionalmente não teria semelhança com a imagem da nossa carta?





sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Tomando as rédeas da própria vida



Quando Viaggio pipoca do baralho logo de manhã, sei que é um dia de decisões. Raramente drásticas, mas importantes. É quando decido começar  a estudar um idioma, começar uma dieta, terminar um livro, dizer não pra quem abusa da minha boa vontade.

Viagem (Zigeunerkarten)


Mas há também as nossas mudanças corajosas. O momento em que erguemos a cabeça a despeito do coração despedaçado. Porque há decisões que, pois mais difíceis que sejam, esperam ansiosamente pela nossa inciativa. E lá no fundo ficamos aliviados de alguma forma. Como se nossos pés simplesmente se encaixassem no caminho certo depois de vaguear por atalhos tortuosos. 





sexta-feira, 21 de março de 2014

Cartas do dia: Prigione - Falsità - Bambino


Costumo tirar três cartas pela manhã para saber qual será a energia dominante do meu dia. Quem lida com a cartomancia conhece bem a prática. As Sibillas são muito literais e cotidianas, e por isso podem ser surpreendentemente precisas. É um baralho muito prático, que monta verdadeiros cenários e nos lembra histórias em quadrinhos. O fato de ter tantas cartas (cinquenta e duas) não confunde, mas enriquece ainda mais a leitura, explora nuanças e humores da situação. 

Quem tira essas cartas diárias sabe como é apavorante tirar cartas pesadas logo pela manhã. Pensamos logo no pior e muitas vezes não temos ideia do desastre que irá se abater sobre nós. Por isso, não sinto que a tiragem seja a melhor para previsões: primeiro porque a previsão é sobre nós, e nossas emoções nem sempre nos permitem fazer uma análise acurada do que o futuro nos promete. Segundo porque são tantos elementos para um dia só que nossa cabeça fica confusa e é difícil saber exatamente a que a tiragem se refere. Muitas vezes, as cartas fazem menção de um episódio isolado ou de algo que acontece com alguém próximo. Não sei como é com cartomantes mais experientes... eu só entendo as cartas do dia no fim do dia ou mesmo nos dias seguintes.




A tiragem acima foi a sequência que me saiu no início da semana. A Prisão é um pouco sufocante e me deixou apreensiva em relação à possibilidade de uma armadilha plantada por uma pessoa falsa (logo falarei da carta Falsidade e a polêmica da sua associação ao gato). Mas o que aconteceu nem foi tão apavorante assim.

Explico. Trabalho num setor muito sobrecarregado de trabalho. Comigo trabalha um colega com quem divido as tarefas. Temos outra colega que chegou recentemente, mas que ajuda esporadicamente a "apagar os incêndios". É um trabalho que exige tempo para aprender, por isso ela não pode nos ajudar muito enquanto não entende todos os detalhes do funcionamento do setor. Porém, na próxima semana meu colega vai tirar férias longas. Conversei então com a terceira colega e lhe expliquei que tínhamos que dividir mais tarefas quando o primeiro colega saísse de férias, o que exigiria maior empenho nas tarefas mais difíceis. 

No dia seguinte (o dia das cartas acima), ela veio falar comigo logo cedo. Explicou que irá para o exterior no segundo semestre, a trabalho, e que precisava fazer alguns cursos oferecidos aqui antes disso. Os cursos ministrados aqui têm dois anos de validade e ela não precisaria refazê-los. Mas ela disse que quer "se atualizar" e que se inscreveria. O problema: os cursos correrão justamente no período em que estaremos sozinhas, o que a impossibilitaria de me ajudar com as tarefas. 

Agora vamos às cartas:

Prigione: situação sufocante. No meu caso, o excesso de trabalho e a possibilidade de fazê-lo sozinha, o que duplicaria a minha carga já pesada.

Falsità + Bambino: minha colega, para escapar dessa situação complicada, inventa um curso para fazer durante esse período. O curso serve apenas como pretexto (Falsidade) para justificar uma atitude totalmente imatura (fugir do trabalho).

Depois ela nos ofereceu uma bandeja de docinhos para que tudo terminasse bem!